Transtorno de Ansiedade
Social ou Fobia Social
O TAS pode ser entendido
como uma vivência exagerada e persistente de ansiedade a estranhos. Crianças
com até 2,5 anos tendem a não se sentir confortáveis perto de pessoas não
familiares, evitando estabelecer uma comunicação assertiva. Este comportamento
é esperado para a idade e deve ser entendido como parte do desenvolvimento
infantil normal. Entretanto, após este período, se o estranhamento persistir e
interferir na construção de uma vida social, é possível que este desconforto
tenha se tornado patológico (Chavira & Stein, 2005).
O DSM-IV-TR apresenta os
seguintes critérios diagnósticos para o TAS: medo acentuado e persistente,
excessivo ou irracional, em uma ou mais situações sociais ou de desempenho, que
envolvam a exposição a pessoas estranhas ou a possível gozação de terceiros.
Presença de resposta imediata de ansiedade, caracterizada muitas vezes como um
ataque de pânico, resultante da antecipação ou do contato com a situação social
temida. Reconhecimento de que o medo é irracional ou desproporcional. As situações
sociais e de desempenho temidas são constantemente evitadas, ou suportadas com
intenso sofrimento, resultando em prejuízo funcional significativo. O quadro
não se deve à ingestão de alguma substância (drogas de abuso ou medicamentos),
condição médica geral e não é melhor explicado por outro transtorno mental
(APA, 2000).
Apesar de não configurar um
critério diagnóstico, a presença de sintomas somáticos é comumente descrita nos
momentos de antecipação e exposição à situação social temida. Palpitações,
tremores, sudorese, desconforto gastrointestinal, diarréia, tensão muscular,
rubor facial e confusão mental são os sintomas mais freqüentes (APA, 2000).
Em crianças e adolescentes,
algumas considerações acerca dos critérios descritos acima devem ser feitas
para que o diagnóstico se confirme. O TAS só pode ser diagnosticado em crianças
que apresentam habilidades sociais adequadas a sua idade, com pessoas que lhe
são familiares. Outra consideração importante é a necessária presença de
ansiedade em situações sociais que envolvam outras crianças e não apenas na
interação com adultos (APA, 2000).
Crianças e adolescentes com
TAS não precisam reconhecer o medo que sentem como irracional ou
desproporcional, mas os sintomas devem ter duração mínima de 6 meses. Este
critério é exclusivo para infanto-juvenis, ou seja, para menores de 18 anos
(APA, 2000).
A resposta ansiosa da
criança tende a ser diferente da apresentada pelo adulto. Diante da situação
temida, a criança procura se afastar do ambiente com pessoas estranhas e buscar
proteção e segurança junto a pessoas familiares, em especial junto aos pais.
Além dos ataques de pânico, o choro e a imobilidade também são reações
apresentadas como resposta ansiosa pela criança (Ashbahr, 2004).
Crianças com TAS referem
passar por situações sociais ansiogênicas quase todos os dias. A escola é o
ambiente onde 60% dos eventos estressores listados pelas crianças ocorrem. A
lista das situações mais temidas inclui: conversar com outras crianças, fazer
provas, apresentações artísticas e leitura em voz alta (Beidel et al., 1999).
Um estudo de Beidel et
al. (1999) identificou as situações mais ansiogênicas para
pré-adolescentes. A leitura em sala de aula, escrever no quadro negro,
apresentações artísticas ou esportivas e conversar com pessoas da mesma idade e
com adultos, foram apontados como situações difíceis de serem enfrentadas pelo
grupo. Hofmann et al. (1999) identificaram interações informais, com pessoas da
mesma idade, como a pior situação social a ser enfrentada entre adolescentes
(citado por Beidel et al., 1999).
A fim de se esquivarem do
desconforto causado por interações sociais temidas, crianças e adolescentes com
TAS evitam ir ao quadro negro na sala de aula, brincar em grupo ou usar o
banheiro da escola (Chavira & Stein, 2005). A principal conseqüência deste
comportamento evitativo é a dificuldade, ou mesmo a incapacidade, de fazer
amizade com pessoas da mesma idade (Beidel et al., 1999). Alguns
autores encontraram que, além do comprometimento das habilidades sociais, crianças
e adolescentes acometidos por TAS apresentam pior desempenho em tarefas que
envolvam leitura em voz alta e fluência, se comparadas com infanto-juvenis
normais da mesma idade (Spence et al.,2001; Beidel et al., 1999;
Essau, Conradt & Peterman, 2000).
O comportamento de esquiva
parece se tornar mais freqüente com a idade (Beidel et al., 1999).
Essau et al. (2000) encontraram que 65,4% da amostra de
adolescentes, com sintomas marcantes de ansiedade social, relataram ter
evitado, pelo menos algumas vezes, situações sociais desconfortáveis. A maior
autonomia dos adolescentes é apontada como principal causa para que o
comportamento evitativo cresça em função do tempo (Beidel et al., 1999).
Crianças e adolescentes com
TAS tendem a interpretar as situações cotidianas como mais ameaçadoras do que
crianças que não apresentam este diagnóstico (Chavira & Stein, 2005).
Aquelas com idades entre 10 e 12 anos e adolescentes com TAS, além de
interpretarem o ambiente como ameaçador, tendem a desenvolver pensamentos negativos
sobre si mesmos e sobre suas capacidades para lidarem com situações sociais
(Spence et al., 2001).
O curso do TAS é variável e
o prejuízo social tanto pode ser mantido na adolescência e vida adulta, como
pode melhorar espontaneamente. Há um alto índice de comorbidades entre TAS e
outros transtornos, inclusive com Abuso de Substâncias quando o TAS se torna
crônico (Essau et al., 2000)
A taxa de prevalência de TAS
na população infanto-juvenil norte-americana se apresenta em torno de 2,5%,
sendo mais prevalente em meninas (Chavira & Stein, 2005). Dois grandes
estudos epidemiológicos da Alemanha encontraram que 0,5% das crianças e entre 2
e 4 % dos adolescentes tinham TAS (Essau et al., 2000;
Wittchen, Stein & Keessler, 1999). Pesquisas epidemiológicas sugerem que o
TAS pode ser mais freqüentemente encontrado em adolescentes do que em crianças
(Chavira & Stein, 2005), com prevalência de 5% em adolescentes com idades
entre 12 e 18 anos (Costello et al., 1999; Ferdinad &
Verhulst, 1995).
Apesar da maior incidência
acontecer por volta de 14 ou 15 anos de idade, o diagnóstico pode se dar em
qualquer idade, sendo relativamente comum em crianças com 7 e 12 anos de idade
(Chavira & Stein, 2005; Spence, 1998). Há evidências de que o início
precoce aumenta a probabilidade do quadro se tornar grave e crônico, havendo
uma abrangência maior de situações sociais temidas e um prognóstico menos
promissor (Chavira & Stein, 2005; Beidel et al.,1999). Chavira
e Stein (2005) identificaram a depressão maior, o TAG, as fobias específicas e
o TDAH como principais comorbidades em uma amostra clínica.
A presença do TAS na
infância e adolescência é um fator de risco para prejuízos funcionais
importantes no adulto (Chavira & Stein, 2005). Estudos prospectivos
mostraram que o adulto com histórico de TAS muitas vezes apresenta uma história
de fracasso escolar, acompanhada de baixa autoestima e solidão (Francis et
al.,1987). O quadro na infância possui forte associação com outros
transtornos de ansiedade, depressão, abuso de substâncias e tentativa de
suicídio na fase adulta (Chavira & Stein, 2005).
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