terça-feira, 19 de abril de 2016

TRANSTORNO DE ANSIEDADE SOCIAL OU FOBIA SOCIAL

Transtorno de Ansiedade Social ou Fobia Social
O TAS pode ser entendido como uma vivência exagerada e persistente de ansiedade a estranhos. Crianças com até 2,5 anos tendem a não se sentir confortáveis perto de pessoas não familiares, evitando estabelecer uma comunicação assertiva. Este comportamento é esperado para a idade e deve ser entendido como parte do desenvolvimento infantil normal. Entretanto, após este período, se o estranhamento persistir e interferir na construção de uma vida social, é possível que este desconforto tenha se tornado patológico (Chavira & Stein, 2005).
O DSM-IV-TR apresenta os seguintes critérios diagnósticos para o TAS: medo acentuado e persistente, excessivo ou irracional, em uma ou mais situações sociais ou de desempenho, que envolvam a exposição a pessoas estranhas ou a possível gozação de terceiros. Presença de resposta imediata de ansiedade, caracterizada muitas vezes como um ataque de pânico, resultante da antecipação ou do contato com a situação social temida. Reconhecimento de que o medo é irracional ou desproporcional. As situações sociais e de desempenho temidas são constantemente evitadas, ou suportadas com intenso sofrimento, resultando em prejuízo funcional significativo. O quadro não se deve à ingestão de alguma substância (drogas de abuso ou medicamentos), condição médica geral e não é melhor explicado por outro transtorno mental (APA, 2000).
Apesar de não configurar um critério diagnóstico, a presença de sintomas somáticos é comumente descrita nos momentos de antecipação e exposição à situação social temida. Palpitações, tremores, sudorese, desconforto gastrointestinal, diarréia, tensão muscular, rubor facial e confusão mental são os sintomas mais freqüentes (APA, 2000).
Em crianças e adolescentes, algumas considerações acerca dos critérios descritos acima devem ser feitas para que o diagnóstico se confirme. O TAS só pode ser diagnosticado em crianças que apresentam habilidades sociais adequadas a sua idade, com pessoas que lhe são familiares. Outra consideração importante é a necessária presença de ansiedade em situações sociais que envolvam outras crianças e não apenas na interação com adultos (APA, 2000).
Crianças e adolescentes com TAS não precisam reconhecer o medo que sentem como irracional ou desproporcional, mas os sintomas devem ter duração mínima de 6 meses. Este critério é exclusivo para infanto-juvenis, ou seja, para menores de 18 anos (APA, 2000).
A resposta ansiosa da criança tende a ser diferente da apresentada pelo adulto. Diante da situação temida, a criança procura se afastar do ambiente com pessoas estranhas e buscar proteção e segurança junto a pessoas familiares, em especial junto aos pais. Além dos ataques de pânico, o choro e a imobilidade também são reações apresentadas como resposta ansiosa pela criança (Ashbahr, 2004).
Crianças com TAS referem passar por situações sociais ansiogênicas quase todos os dias. A escola é o ambiente onde 60% dos eventos estressores listados pelas crianças ocorrem. A lista das situações mais temidas inclui: conversar com outras crianças, fazer provas, apresentações artísticas e leitura em voz alta (Beidel et al., 1999).
Um estudo de Beidel et al. (1999) identificou as situações mais ansiogênicas para pré-adolescentes. A leitura em sala de aula, escrever no quadro negro, apresentações artísticas ou esportivas e conversar com pessoas da mesma idade e com adultos, foram apontados como situações difíceis de serem enfrentadas pelo grupo. Hofmann et al. (1999) identificaram interações informais, com pessoas da mesma idade, como a pior situação social a ser enfrentada entre adolescentes (citado por Beidel et al., 1999).
A fim de se esquivarem do desconforto causado por interações sociais temidas, crianças e adolescentes com TAS evitam ir ao quadro negro na sala de aula, brincar em grupo ou usar o banheiro da escola (Chavira & Stein, 2005). A principal conseqüência deste comportamento evitativo é a dificuldade, ou mesmo a incapacidade, de fazer amizade com pessoas da mesma idade (Beidel et al., 1999). Alguns autores encontraram que, além do comprometimento das habilidades sociais, crianças e adolescentes acometidos por TAS apresentam pior desempenho em tarefas que envolvam leitura em voz alta e fluência, se comparadas com infanto-juvenis normais da mesma idade (Spence et al.,2001; Beidel et al., 1999; Essau, Conradt & Peterman, 2000).
O comportamento de esquiva parece se tornar mais freqüente com a idade (Beidel et al., 1999). Essau et al. (2000) encontraram que 65,4% da amostra de adolescentes, com sintomas marcantes de ansiedade social, relataram ter evitado, pelo menos algumas vezes, situações sociais desconfortáveis. A maior autonomia dos adolescentes é apontada como principal causa para que o comportamento evitativo cresça em função do tempo (Beidel et al., 1999).
Crianças e adolescentes com TAS tendem a interpretar as situações cotidianas como mais ameaçadoras do que crianças que não apresentam este diagnóstico (Chavira & Stein, 2005). Aquelas com idades entre 10 e 12 anos e adolescentes com TAS, além de interpretarem o ambiente como ameaçador, tendem a desenvolver pensamentos negativos sobre si mesmos e sobre suas capacidades para lidarem com situações sociais (Spence et al., 2001).
O curso do TAS é variável e o prejuízo social tanto pode ser mantido na adolescência e vida adulta, como pode melhorar espontaneamente. Há um alto índice de comorbidades entre TAS e outros transtornos, inclusive com Abuso de Substâncias quando o TAS se torna crônico (Essau et al., 2000)
A taxa de prevalência de TAS na população infanto-juvenil norte-americana se apresenta em torno de 2,5%, sendo mais prevalente em meninas (Chavira & Stein, 2005). Dois grandes estudos epidemiológicos da Alemanha encontraram que 0,5% das crianças e entre 2 e 4 % dos adolescentes tinham TAS (Essau et al., 2000; Wittchen, Stein & Keessler, 1999). Pesquisas epidemiológicas sugerem que o TAS pode ser mais freqüentemente encontrado em adolescentes do que em crianças (Chavira & Stein, 2005), com prevalência de 5% em adolescentes com idades entre 12 e 18 anos (Costello et al., 1999; Ferdinad & Verhulst, 1995).
Apesar da maior incidência acontecer por volta de 14 ou 15 anos de idade, o diagnóstico pode se dar em qualquer idade, sendo relativamente comum em crianças com 7 e 12 anos de idade (Chavira & Stein, 2005; Spence, 1998). Há evidências de que o início precoce aumenta a probabilidade do quadro se tornar grave e crônico, havendo uma abrangência maior de situações sociais temidas e um prognóstico menos promissor (Chavira & Stein, 2005; Beidel et al.,1999). Chavira e Stein (2005) identificaram a depressão maior, o TAG, as fobias específicas e o TDAH como principais comorbidades em uma amostra clínica.
A presença do TAS na infância e adolescência é um fator de risco para prejuízos funcionais importantes no adulto (Chavira & Stein, 2005). Estudos prospectivos mostraram que o adulto com histórico de TAS muitas vezes apresenta uma história de fracasso escolar, acompanhada de baixa autoestima e solidão (Francis et al.,1987). O quadro na infância possui forte associação com outros transtornos de ansiedade, depressão, abuso de substâncias e tentativa de suicídio na fase adulta (Chavira & Stein, 2005).


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