Desde a Grécia antiga e mais precisamente nos primórdios da filosofia, existe a pergunta sobre “o ser e o não ser”, que foi formulada por Parmênides de Eléia que buscava a verdadeira essência da realidade de todas as coisas, dentre esta multiplicidade, também o homem no seu contexto natural por essência. Com Sócrates passou-se a estudar a essência de justiça e o grande bem de, e para o ser humano, no qual Aristóteles fundamentou sua teoria sobre a Pólis com base na Paidéia pedagógica, para formação de governantes realmente dotados dos predicativos necessários e fundamentais para o bem geral da sociedade, de forma com que todos os membros desta sociedade pudessem viver de maneira plena e fortalecidos contra as vicissitudes humanas, fundamentados na lógica e na razão. Portanto na psicologia da época, buscava-se o bem estar geral nas virtudes humanas.
Na vida contemporânea percebemos que as virtudes cardeais que norteavam o homem em comparação à Grécia antiga, foram abandonadas, porém, quais seriam os fatores determinantes para esta mudança do perfil psicológico na atualidade de nossa sociedade, onde percebemos a derrocada de valores basais do ser humano? Quais seriam as causas desta fenomenologia que impõe à sociedade de forma geral tantas preocupações, o que essencialmente mudou no ser humano contemporâneo, e por que o conceito prático de bem, está tão desgastado na atualidade, manifestando sintomas sociais como: violência, corrupção, falta de ética no convívio social, etc.?
Recentemente vimos apresentados na mídia, casos de filhos abandonando seus lares em busca de aventuras e liberdade, nos depoimentos que vimos, dados por eles, havia a manifestação de queixas feitas às suas famílias, de que não eram compreendidos, sentiam-se reprimidos e não se sentiam afetivamente valorizados. É notório ao observarmos estes comentários, que estes jovens vivenciam um paradigma sócio-cultural, que buscam a gratificação de seus conteúdos emocionais e fortalecimento de seu EGO, em contraposição aos valores morais e culturais apresentados por seus pais, que no afã de instruir seus filhos no caminho moralmente correto, impõe a castração destes mesmos conteúdos de gratificação do puro prazer, para que se tornem cidadãos aptos a participarem de forma construtiva e integrada na sociedade. Vemos, também a luta que os pais se vêem obrigados a enfrentar diariamente na busca pela manutenção econômico-material de seus lares, para que possam dar todo o conforto possível aos que amam, e impondo com isso, involuntariamente por força do meio, o distanciamento aos seus objetos de afeto fazendo-os sentirem-se afetivamente abandonados, sozinhos e inseguros. Percebemos também, a grande quantidade de famílias desagregadas por separações, isso com certeza em muito influencia neste comportamento rebelde, nessa busca por espaço e construção de sua individualidade, tentando fazer com que suas idéias e opiniões sejam respeitadas. Hoje, a juventude “transformou-se num excelente e gigantesco mercado de consumo para inúmeros produtos, alguns dos quais criados especialmente ou com a sua publicidade voltada exclusivamente para o adolescente” (BECKER, 1985, p. 59). Até bem pouco tempo, ser jovem era somente uma fase de transição vivida apressadamente em direção do ser maduro, adulto, aceito pelo sistema social. Hoje ser jovem é algo a ser preservado e até prolongado. A contraponto, vemos com cada vez maior freqüência adultos resistentes em deixar a casa dos pais, pessoas já maduras com um comportamento imaturo, quase adolescente, por não aceitarem objetivamente as responsabilidades que o meio social impõe, vivenciam suas vidas com vistas, quase que exclusivamente na busca pelos prazeres pessoais. A falta de perspectiva de um futuro melhor, e quando não a insegurança em conseguir, no mínimo, manter as condições materiais que sempre tiveram em sua vida familiar sugere a negação à realidade, imposta pelo meio. Portanto, vemos um comportamento egocêntrico e até agressivo ao impor suas vontades no meio em que vivem, principalmente o familiar, a total falta de respeito aos objetos de autoridade, que com certeza, irão levá-los a uma inadaptabilidade social por não aceitarem e obedecerem às leis de conduta, neste mesmo convívio social, vivendo de maneira a gratificar suas paixões, não se importando com a coletividade.
A relação entre razão e moral na Modernidade
Na visão Kantiana.
Para Immanuel Kant, filósofo alemão (1.724 a 1.804), o ser humano deve ser estimulado no que denomina moral como construção do caráter com base unicamente na razão que é o bem supremo do ser humano e como tal deve ser utilizada, neste contexto, diz Kant que o ser humano seve abster-se de suas paixões, que seriam as suas inclinações emocionais humanas, pois, estas o desviariam da conduta moral correta para si e para a sociedade.
Kant defende como moral os preceitos da razão, sendo sua manifestação mais exponencial a prática da moral como conduta do indivíduo, estabelecida como lei para esta mesma conduta “A metafísica dos Costumes, ou metaphysica pura, é apenas a primeira parte da moralidade; a segunda parte é a philosophia moralis appliccata, antropologia moral, à qual os princípios empíricos pertencem”. (apud OLIVEIRA; Mário Nogueira de, 2006, p. 71).
De acordo com Oliveira (...) “A filosofia prática geral é propedêutica. A antropologia moral é a moralidade aplicada ao homem. Moralia pura é baseada em leis necessárias, e assim ela não pode ser fundamentada na constituição particular do homem, e as leis baseadas nisso ficaram conhecidas na antropologia moral sob o nome de ética. Na filosofia prática geral, a metafísica dos costumes, ou metaphysica pura, é também apresentada em um modo mesclado.” (Ibiden).
Nesse contexto Kant via como estância última para a moralização do homem a construção do caráter, que seria segundo ele o hábito do indivíduo em seguir certas máximas no convívio social norteado pela razão, abstraindo-se de suas inclinações puramente emocionais.
Percebemos a grande depauperação de princípios basais em detrimento da perda de valores morais fundamentais e essenciais à sociedade, que vem se desgastando gradualmente já há algum tempo, a começar de alguns de nossos políticos que primam pela lei do oportunismo e vantagens econômicas, como vemos com tanta freqüência na mídia aberta. E aos adultos cabe uma reflexão: Será de que de alguma forma não estamos contribuindo para este comportamento de nossos jovens? Mais ainda, será que este modelo sócio-cultural que hoje em dia percebemos com tanta energia, no que tange aos benefícios adquiridos pelo vil metal no sistema capitalista, o qual seguimos alienadamente como se fosse à condição única para sermos felizes, realmente é uma realidade ou trata-se de uma ilusão? Será que ao abrirmos mão de nossa sensibilidade e calor humano principalmente para com nossos afetos, não estamos colaborando de alguma forma para a degradação das relações interpessoais e tornando-nos com isso autômatos da vida contemporânea?
Dr. Marco Aurélio Barbosa.
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domingo, 29 de junho de 2008
quarta-feira, 11 de junho de 2008
O que são e como se formam as neuroses?
Ao nascermos somos regidos fundamental e essencialmente pelos instintos animais primitivos (ID), os quais visam prioritariamente à preservação da vida e gratificação do prazer e bem estar. Durante nosso desenvolvimento em direção à construção de nossa personalidade individual, somos confrontados com as imposições sócio-culturais apresentados por nossas referências afetivas primárias (pai, mãe, avós, padrastos e repressões do meio sócio-econômico etc.), entre o que se gostaria de fazer e o que se deve fazer (SUPER EGO), criando frustrações dos instintos basais e gerando o recalcamento de determinada gratificação do prazer obrigando nosso psiquismo a elaborar (compensar), mecanismos inconscientes de defesa de forma a tornar aceitável a gratificação não recebida (EGO). A neurose propriamente dita é quando o indivíduo, sem perceber, adota posturas defensivas que vão se tornando cada vez mais severas, tentando inconscientemente transformar o meio e resgatar o prazer reprimido e recalcado, projetando o conflito de sua memória inconsciente no meio objetivo (regressão ao ponto de fixação), tentando nos dias atuais resolver problemas que na verdade estão em outro lugar e em outra época, porém esta adaptação do psiquismo não é suficiente para resolver o problema de maneira definitiva, pois, não há elaboração real do inconsciente e o indivíduo continua no ciclo repetitivo do comportamento neurótico e cada vez mais, intensificando o comportamento defensivo emocional, lutando cada vez com maior energia contra o verdadeiro "inimigo oculto" que o aflige. O comportamento neurótico cíclico na tentativa infrutífera de compensar definitivamente, as repressões do meio ao qual está inserido a contraponto de uma viagem constante atemporal e interespacial, torna-se cada vez mais crescente e o psiquismo fica cada vez mais incompetente em satisfazer e adequar o ego a realidade contemporânea do indivíduo e em decorrência deste fenômeno emocional, percebemos a diminuição paulatina, porém, gradual e constante da saúde psíquica, (Homeostase Psiconeuroimunológica), levando ao aparecimento dos mais variados quadros sintomáticos clínicos como: depressão, ansiedade, processos fóbicos, paranóias, conflitos afetivos, homossexualismo, insegurança, sentimento de inferioridade, anorexia, insônia, terror noturno, transtorno obsessivo compulsivo (TOC), desvios de caráter, desvios de comportamento, alcoolismo, toxicomania, obsessividade afetiva (ciúmes), dificuldade de concentração, falta de memória, exclusão social, timidez excessiva, etc. E as chamadas doenças psicossomáticas ou histeriformes como: gastrites, cefaléias, fibromialgia, dores durante o contato sexual, dores nas costas (tensional), tremores, alguns casos de vertigens, bruxismo, algias na articulação temporo-mandibular, trigeminalgia, dores nos músculos (mialgias), alguns casos de hipertensão arterial, disfunção erétil, ejaculação precoce, alguns quadros de bronquites, taquicardia, opressão toráxica (sensação de aperto no peito), etc. É importante que se tenha em mente, que o fenômeno neurótico consiste em um mecanismo de defesa de nossas cargas emocionais naturais frustradas, enquanto seres humanos e que são reprimidas por concorrência de nosso intelecto na forma de razão, que tem por força do meio sócio-cultural em que estamos inseridos, de adequar-se as convenções do meio e que nos são impostas como regras e ditames para a boa convivência social.
Dr. Marco Aurélio Barbosa
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