terça-feira, 19 de abril de 2016

O FENÔMENO DA TRANSFERÊNCIA NA PSICANÁLISE

O FENÔMENO DATRANSFERÊNCIA
           
            O primeiro momento do conceito de transferência em Freud (1905) e o texto “Dinâmica da transferência” (1912). Veremos outro texto importante de Freud sobre este conceito, o “Recordar, repetir e elaborar” (1914).
            Neste texto em questão, Freud ressalta o caráter de repetição presente no fenômeno transferencial, afirmando:
      (...) o paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e recalcou, mas expressão pela atuação ou atua-o (acts it out). Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber que o está repetindo. (Freud, 1914, p. 165).

            Sendo assim, Freud demonstra claramente o caráter de repetição presente no fenômeno da transferência. Ao invés de recordar, de associar, o paciente age, sem saber o que faz ou porque faz. Desta forma, o repetir em ato do clichê estereotípico com o analista constitui uma resistência ao trabalho da análise, porque o objetivo da mesma é colocar o sujeito para falar, elaborando suas questões relacionadas a representações e fantasias inconscientes. Quando não fala e age, o paciente resiste ao trabalho da análise, à regra fundamental da mesma: a livre associação.
            Com relação à repetição, Freud afirma que o é repetido pelo paciente são idéias recalcadas e fantasias, moções, nexos de pensamento. Estes últimos constituem algo que não pode ser esquecido porque nunca foi consciente; demonstram que o Inconsciente é maior que o recalcado.
            Essa repetição em ato, Freud chama de compulsão à repetição, expressão que será usada por ele, em 1920, para falar daquilo que se situa além do princípio do prazer – a pulsão de morte. Sendo assim, já podemos ver indícios do que Freud vai teorizar mais tarde, neste texto “Além do princípio do prazer”, onde a transferência é mencionada e estudada como um fenômeno clínico que apresenta um viés de pulsão de morte, explicação freudiana para a resistência do paciente em análise com relação ao tratamento.
           
            O que o paciente repete? Pergunta-se Freud, neste texto de 1914. Diz ele: o paciente repete tudo – suas inibições, atitudes, traços patológicos, etc - o que já avançou a partir das fontes do recalcado para a sua personalidade manifesta. “Repete também todos os seus sintomas, no decurso do tratamento” (p. 167).
            A partir dessa afirmação, entramos no conceito de neurose de transferência, uma neurose artificial, provocada pela situação analítica, em torno da qual tendem a se organizar as manifestações da transferência. É uma nova edição da neurose clínica, que se constitui a partir da relação do paciente com seu analista, e a sua elucidação leva à consideração da neurose infantil.
      A transferência cria, assim, uma região intermediária entre a doença e a vida real, através da qual a transição de uma para outra é efetuada. A nova condição assumiu todas as características da doença, mas representa uma doença artificial, que é, em todos os pontos, acessível a nossa intervenção. Trata-se de um fragmento de experiência real, mas um fragmento que foi tornado possível por condições favoráveis, e que é de natureza provisória (FREUD, 1914, p. 170).

            A transferência é ainda vista por Freud como um playground, um terreno onde acontece tudo que diz respeito ao tratamento e onde os sintomas, um por um, podem ser desfeitos, a partir da intervenção do analista.
            Quando, pelo manejo da transferência, o paciente se dá conta do que fez e atuou, o mesmo pode questionar esse ato, e elaborar as questões que determinaram essa atuação – ou, pelo menos, boa parte delas. Mas esse processo de elaboração leva tempo, um tempo que não segue o tempo do relógio e que não pode ser apressado pelo analista. É preciso lembrar que a resistência acompanha o tratamento o tempo todo e, por isso, em certos momentos do tratamento, as associações ficam raras ou tem-se a sensação que quase não se anda; ao contrário, em outros momentos, fica-se com a impressão de que se andou muito em pouco tempo.
            Mas é justamente essa elaboração das resistências – que se apresentam como transferência – que constitui a parte do trabalho que dá os maiores resultados e que faz com que a psicanálise seja uma prática completamente diferente de todas as outras.

            Além dessa afirmação de que uma análise leva tempo, Freud, no texto “Sobre o início do tratamento” (1913), afirma que essas questões relativas ao tempo devem ser colocadas claramente no início de análise, para o paciente.
            Também devem ser colocadas claramente, e logo de cara, as questões relativas ao dinheiro. Isso porque não só há um trabalho sendo feito e o médico – analista precisa receber pelo seu tempo de trabalho, mas também porque o dinheiro numa análise traz a tona questões libidinais, relativas à sexualidade. Em quê e como investimos nosso dinheiro mostra o que é importante para nós, em que investimos nossa energia psíquica.
            Para Freud, a psicanálise é um tratamento caro e que exige uma dedicação, um investimento do sujeito. E quando falamos caro, estamos mencionando o valor monetário mas também o valor simbólico que o sujeito dá ao seu tratamento. Mesmo sendo caro, diz Freud: “nada na vida é tão caro quanto a doença – e a estupidez” (1913, p. 148).
            O dinheiro precisa ser tratado com o paciente de modo franco e tem efeito regulador, diminuindo a resistência ao tratamento basicamente por dois fatores: demonstra que a relação analista-analisando não é somente uma relação amorosa e induz o analisando a querer melhorar logo, para poder parar de pagar ao seu analista, e poder encerrar a sua análise.
            Esses itens precisam ser colocados de modo claro logo no início do tratamento, para que o mesmo possa transcorrer. Sem o efeito regulador do dinheiro e sem a clareza de que uma análise demora – sem podermos precisar o quanto -, caímos no risco de aumentarmos muito as resistências ao tratamento e inviabilizarmos uma análise.
            Outra questão que Freud comenta neste texto é a função do divã numa análise. Ele serve para evitar “(...) que a transferência se misture imperceptivelmente às associações do paciente, isolar a transferência e permitir-lhe que apareça, no devido tempo nitidamente definido como resistência” (p. 149)

            Deste modo, vemos nestes dois textos de Freud aqui trabalhados, as duas vertentes do fenômeno transferencial: a repetição como resistência, e a condição fundamental de análise. Sendo assim, o manejo da transferência, para Freud, é a parte do trabalho que dá os maiores resultados, mas também a parte mais difícil de uma análise.

Autor desconhecido.



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