O
FENÔMENO DATRANSFERÊNCIA
O
primeiro momento do conceito de transferência em Freud (1905) e o texto
“Dinâmica da transferência” (1912). Veremos outro texto importante de Freud
sobre este conceito, o “Recordar, repetir e elaborar” (1914).
Neste
texto em questão, Freud ressalta o caráter de repetição presente no fenômeno
transferencial, afirmando:
(...) o paciente não
recorda coisa alguma do que esqueceu e recalcou, mas expressão pela atuação ou
atua-o (acts it out). Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação;
repete-o, sem, naturalmente, saber que o está repetindo. (Freud, 1914, p. 165).
Sendo
assim, Freud demonstra claramente o caráter de repetição presente no fenômeno
da transferência. Ao invés de recordar, de associar, o paciente age, sem saber
o que faz ou porque faz. Desta forma, o repetir em ato do clichê estereotípico
com o analista constitui uma resistência ao trabalho da análise, porque o
objetivo da mesma é colocar o sujeito para falar, elaborando suas questões
relacionadas a representações e fantasias inconscientes. Quando não fala e age,
o paciente resiste ao trabalho da análise, à regra fundamental da mesma: a
livre associação.
Com
relação à repetição, Freud afirma que o é repetido pelo paciente são idéias
recalcadas e fantasias, moções, nexos de pensamento. Estes últimos constituem
algo que não pode ser esquecido porque nunca foi consciente; demonstram que o
Inconsciente é maior que o recalcado.
Essa
repetição em ato, Freud chama de compulsão à repetição, expressão que será
usada por ele, em 1920, para falar daquilo que se situa além do princípio do
prazer – a pulsão de morte. Sendo assim, já podemos ver indícios do que Freud
vai teorizar mais tarde, neste texto “Além do princípio do prazer”, onde a
transferência é mencionada e estudada como um fenômeno clínico que apresenta um
viés de pulsão de morte, explicação freudiana para a resistência do paciente em
análise com relação ao tratamento.
O
que o paciente repete? Pergunta-se Freud, neste texto de 1914. Diz ele: o
paciente repete tudo – suas inibições, atitudes, traços patológicos, etc - o
que já avançou a partir das fontes do recalcado para a sua personalidade
manifesta. “Repete também todos os seus sintomas, no decurso do tratamento” (p.
167).
A
partir dessa afirmação, entramos no conceito de neurose de transferência, uma
neurose artificial, provocada pela situação analítica, em torno da qual tendem
a se organizar as manifestações da transferência. É uma nova edição da neurose
clínica, que se constitui a partir da relação do paciente com seu analista, e a
sua elucidação leva à consideração da neurose infantil.
A transferência cria, assim, uma região intermediária entre a
doença e a vida real, através da qual a transição de uma para outra é efetuada.
A nova condição assumiu todas as características da doença, mas representa uma
doença artificial, que é, em todos os pontos, acessível a nossa intervenção.
Trata-se de um fragmento de experiência real, mas um fragmento que foi tornado
possível por condições favoráveis, e que é de natureza provisória (FREUD, 1914,
p. 170).
A
transferência é ainda vista por Freud como um playground, um terreno onde acontece tudo que diz respeito ao
tratamento e onde os sintomas, um por um, podem ser desfeitos, a partir da
intervenção do analista.
Quando,
pelo manejo da transferência, o paciente se dá conta do que fez e atuou, o
mesmo pode questionar esse ato, e elaborar as questões que determinaram essa
atuação – ou, pelo menos, boa parte delas. Mas esse processo de elaboração leva
tempo, um tempo que não segue o tempo do relógio e que não pode ser apressado
pelo analista. É preciso lembrar que a resistência acompanha o tratamento o
tempo todo e, por isso, em certos momentos do tratamento, as associações ficam
raras ou tem-se a sensação que quase não se anda; ao contrário, em outros
momentos, fica-se com a impressão de que se andou muito em pouco tempo.
Mas
é justamente essa elaboração das resistências – que se apresentam como
transferência – que constitui a parte do trabalho que dá os maiores resultados
e que faz com que a psicanálise seja uma prática completamente diferente de
todas as outras.
Além
dessa afirmação de que uma análise leva tempo, Freud, no texto “Sobre o início
do tratamento” (1913), afirma que essas questões relativas ao tempo devem ser
colocadas claramente no início de análise, para o paciente.
Também
devem ser colocadas claramente, e logo de cara, as questões relativas ao
dinheiro. Isso porque não só há um trabalho sendo feito e o médico – analista
precisa receber pelo seu tempo de trabalho, mas também porque o dinheiro numa
análise traz a tona questões libidinais, relativas à sexualidade. Em quê e como
investimos nosso dinheiro mostra o que é importante para nós, em que investimos
nossa energia psíquica.
Para
Freud, a psicanálise é um tratamento caro e que exige uma dedicação, um
investimento do sujeito. E quando falamos caro, estamos mencionando o valor
monetário mas também o valor simbólico que o sujeito dá ao seu tratamento.
Mesmo sendo caro, diz Freud: “nada na vida é tão caro quanto a doença – e a
estupidez” (1913, p. 148).
O
dinheiro precisa ser tratado com o paciente de modo franco e tem efeito
regulador, diminuindo a resistência ao tratamento basicamente por dois fatores:
demonstra que a relação analista-analisando não é somente uma relação amorosa e
induz o analisando a querer melhorar logo, para poder parar de pagar ao seu
analista, e poder encerrar a sua análise.
Esses
itens precisam ser colocados de modo claro logo no início do tratamento, para
que o mesmo possa transcorrer. Sem o efeito regulador do dinheiro e sem a
clareza de que uma análise demora – sem podermos precisar o quanto -, caímos no
risco de aumentarmos muito as resistências ao tratamento e inviabilizarmos uma
análise.
Outra
questão que Freud comenta neste texto é a função do divã numa análise. Ele
serve para evitar “(...) que a transferência se misture imperceptivelmente às
associações do paciente, isolar a transferência e permitir-lhe que apareça, no
devido tempo nitidamente definido como resistência” (p. 149)
Deste
modo, vemos nestes dois textos de Freud aqui trabalhados, as duas vertentes do
fenômeno transferencial: a repetição como resistência, e a condição fundamental
de análise. Sendo assim, o manejo da transferência, para Freud, é a parte do trabalho
que dá os maiores resultados, mas também a parte mais difícil de uma análise.
Autor desconhecido.
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