Recordo-me que há 30 anos, a sociedade médica, contemporânea àquela época, rotulava o stress como a doença do século e um dos maiores males da humanidade de todos os tempos e que em roupagem de morbidade mais moderna se manifestou como a depressão, que era o “pecado da preguiça”, apresentada na Divina Comédia de Dante Alighieri, onde ele relata sua viagem pelos três reinos do outro mundo: o Inferno, o vale doloroso onde termina o ser humano a partir do momento que ele se recusa a seguir a "verdadeira via", a da razão e da virtude. O Purgatório, montanha alta e escarpada, que se eleva do grande oceano do hemisfério inferior e o Paraíso, onde a beatitude é descrita e representada. A Divina Comédia é antes de mais nada, um testemunho de uma época no qual o homem deveria viver em conformidade e harmonia com a vontade divina. Este livro foi escrito no que se denomina Idade das Trevas do Conhecimento, em que sociedade daquele tempo norteava sua conduta no paradigma teocêntrico, por imposição ideológica do poder ocidental vigente naquela época. No renascimento, abriu-se a porta para novas perspectivas onde círculos de intelectuais positivistas que enveredavam pela ciência do conhecimento com base em modelos científicos, a que se seguiu o fenômeno iluminista. Porém, o que se poderia esperar como libertação da imposição de prática alienatórias em verdade se travestiu em um novo modelo de alienação cartesiana, que em nossa realidade contemporânea se manifesta com o ritmo frenético em detrimento da política do capital que torna-nos, a todos, reféns de sua realidade opressora. Sendo assim, percebemos como sintomas desta tortura social a que somos submetidos, as mais variadas doenças de comportamento social e afetamentos psíquicos como, a depressão, os transtornos fóbico-ansiosos (banalmente denominados de síndrome do pânico), de ansiedade, agorafóbicos, de caráter, transtornos obsessivo-compulsivos, violência social, sociopatias, psicopatias, doenças psicossomáticas, histeriformes, enfim, sintomas de pessoas que vivem em uma sociedade que está e avança cada vez mais doente por conta do medo em que vive. Este medo, no meu entender, nada mais é do que a necessidade em se afirmar frente ao meio objetivo ao qual estamos lançados, e no qual vemos as nossas chances de corresponder às expectativas mundanas cartesianistas cada vez mais distantes, no fetichismo consumista que nos diz que sempre temos que ter mais e melhor para que possamos verdadeiramente nos integrar junto a esta sociedade que só nos oprime, pois, nunca há um fim por sempre termos que dar mais e mais, colocando-nos em um círculo vicioso e opressor por nos negar o sentimento de gratificação plena e concorrente realização, de forma a fortalecer o nosso verdadeiro Eu que se adoenta na angústia.
Neste sentido, gostaria de apresentar a reflexão de alguns dos mais respeitáveis pensadores contemporâneos à nossa época, na esperança de corroborar as minhas próprias reflexões.
Prof. Dr. Marco Aurélio Barbosa.
Heidegger e a defesa da autenticidade
O pensamento de Heidegger propicia compreender algumas das facetas mais fundamentais do ser humano que vive nos séculos XX e XXI. A reflexão se faz de maneira profunda, perguntando sobre o sentido do ser e, portanto, é uma reflexão ontológica que possibilita o desvelamento de nossa existência na contemporaneidade. Heidegger empreende uma crítica ferrenha ao modo de vida moderno e propõe também um ultrapassamento da subjetividade moderna, a ressignificação de nossa existência. Faz isso por meio da recuperação da pergunta pelo sentido do ser, segundo o filósofo pergunta totalmente esquecida pelo Ocidente e que não perguntada faz com que a existência seja ignorada. Heidegger é o filósofo que denuncia, já no início do século XX, na cultura ocidental, o famoso esquecimento do ser (seinsverzessenhut), e investigar esta questão se tornou a preocupação central e única de sua filosofia. Segundo Heidegger, a diferença fundamental entre nós e os animais não é a razão e sim o fato de que nós seres humanos somos seres abertos, enquanto os animais são fechados. Nós somos seres-no-mundo, enquanto os animais só se relacionam com o espaço-em-torno. O mundo para os animais é embotado, enquanto para nós é transparente, ou pelo menos pode ser transparente. O ser humano é livre para criar o possível, enquanto os animais apenas cedem às cadeias causais já dadas. O que tem essa comparação a ver com a crítica heideggeriana à modernidade que estamos nos propondo a apresentar aqui? Na modernidade a transparência do mundo fica embotada, pois o indivíduo fica obstruído num modo de vida alienado, em última instância vivendo como que animais. Em Ser e tempo, Heidegger empreende uma espécie de radiografia ontológica do ser humano (Dasein), que possibilita captar a existência humana naquilo que é ôntico existenciário e ontológico existencial. Ao radiografar o humano, indica quais as estruturas existenciais que pertencem ao humano em seu mundo. Heidegger empreende a chamada analítica do Dasein. A primeira das constatações é que a visão moderna forjada logo no início da modernidade de que somos subjetividade de uma objetividade, ou seja, senhores das coisas, sujeitos de objetos e que nossa vida se constitui na relação de dominação e controle sobre o mundo dos objetos é extremamente equivocada. O Dasein, para Heidegger, não é uma subjetividade de uma objetividade, é locanda, ou lugar de abertura em que as coisas são ou acontecem. O ser humano seria uma clareira. É um ente privilegiado, único que pergunta pelo sentido do ser, que tem condições de compreender, de projetar, de criar o ainda-não, de poder ser sempre aquilo que lhe é próprio. Ente inacabado, finito e aberto por essência, ele só é com os outros, só é-com. Porém, a vida social moderna apresenta outro quadro, A vida social é o império do a gente, a ditadura do impessoal, o âmbito em que se confunde o todos nós e o ninguém, na medida em que se age de acordo com o que se pensa em geral. A concepção básica de Heidegger acerca da vida em sociedade é que ela é regida por uma noção obscura de convivência, em que não há sujeitos e sim domina o império do impessoal, de uma sociabilidade truncada, em que nem o eu nem o nós se distinguem. Este impessoal é ele mesmo sem rosto, uma espécie de ninguém que comanda a vida individual e não pode ser identificado com este ou aquele ser humano. Ocorre aqui uma perda do Dasein no espaço aberto da opinião pública [Öffentlichkeit] que tudo devora e nivela por baixo e determina o que cada um deve fazer (WERLE, 2003, p.97-113). Todas as estruturas existenciais apresentadas anteriormente, só aparecem numa vida autêntica, a vida na modernidade manifesta, ao contrário das estruturas anteriores, um ente alienado, fechado, que vive na publicidade (que é um extravio do público), num tempo fixado em dimensões objetivas: Sujeitos de objetos. A libertação do homem da exploração pelo homem, as preocupações ecológicas com o meio ambiente, o controle da violência, são para Heidegger, necessidades urgentes para assegurar a sobrevivência do homem e de toda a terra Segundo ele, na perspectiva onipotente desta segurança, tudo está subordinado ao meio para sobreviver. A sociedade está organizada de forma que o não servir à sobrevivência representa um perigo, uma ameaça, portanto ser, pensar, sentir, saber e fazer devem servir unicamente para garantir a segurança e a sobrevivência e a serviço desta pseudo-segurança se encontra toda a nossa realidade. Heidegger percebeu que sobreviver é a única ambição que vai restar ao homem pós-moderno e, citando Höelderlin, diz: .pouco saber e muita jovialidade é o que foi dado aos mortais.. Pressentindo as mazelas criadas pelo super desenvolvimento, define o ser como funcionalidade e a verdade como operatividade no mundo que foi desenvolvido. Heidegger tenta demonstrar a grande inversão de valores do mundo moderno no que se refere ao conceito de sujeito e objeto, pois o homem passou a ser produto de seu próprio produto, estando em vias de se anular. Segundo o filósofo, na busca desenfreada de auto-asseguramento, o homem reduz toda a grandeza, diminui toda a profundidade, e foge da vitalidade criadora. O poder crescente da automação e do progresso implica uma crescente desumanidade. O homem só poderá se refazer dos malefícios da pós-modernidade ou melhor, suportá-los quando tomar consciência da própria alienação de sua essência, porém procurando sair de sua perdição está construindo uma trilha em qualquer sentido. A história do homem, para Heidegger, É A HISTÓRIA DO ESQUECIMENTO DO SER (ZAJDSZNAJDER, 1992, p.45). Há saída? Há. O Dasein é aberto e se angustia. Quando se angustia descortina o horizonte da existência. Essa disposição que é fundamental e não tem causa no mundo, é do próprio Dasein. A angústia revela o poder-ser-mais-próprio, ele é livre para assumir e consumir a existência de maneira autêntica. O porquê a angústia se angustia não é um modo determinado de ser e uma possibilidade do ser-aí. A ameaça é ela mesma indeterminada, não chegando, portanto, a penetrar como ameaça neste ou naquele poder-ser concreto e de fato. A angústia se angustia pelo próprio ser-no-mundo (...). o mundo não é mais capaz de oferecer alguma coisa nem sequer a co-presença dos outros. A angústia retira, pois, do ser-aí a possibilidade de, na decadência, compreender a si mesmo a partir do mundo e na interpretação pública (HEIDEGGER, 1986, §40, p.187).
O resgate da vida é possível. O ultrapassamento é possível.