segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O FENÔMENO DA ANGÚSTIA NA VIDA MODERNA SOB UMA ÓTICA FILOSÓFICA

Recordo-me que há 30 anos, a sociedade médica, contemporânea àquela época, rotulava o stress como a doença do século e um dos maiores males da humanidade de todos os tempos e que em roupagem de morbidade mais moderna se manifestou como a depressão, que era o “pecado da preguiça”, apresentada na Divina Comédia de Dante Alighieri, onde ele relata sua viagem pelos três reinos do outro mundo: o Inferno, o vale doloroso onde termina o ser humano a partir do momento que ele se recusa a seguir a "verdadeira via", a da razão e da virtude. O Purgatório, montanha alta e escarpada, que se eleva do grande oceano do hemisfério inferior e o Paraíso, onde a beatitude é descrita e representada. A Divina Comédia é antes de mais nada, um testemunho de uma época no qual o homem deveria viver em conformidade e harmonia com a vontade divina. Este livro foi escrito no que se denomina Idade das Trevas do Conhecimento, em que sociedade daquele tempo norteava sua conduta no paradigma teocêntrico, por imposição ideológica do poder ocidental vigente naquela época. No renascimento, abriu-se a porta para novas perspectivas onde círculos de intelectuais positivistas que enveredavam pela ciência do conhecimento com base em modelos científicos, a que se seguiu o fenômeno iluminista. Porém, o que se poderia esperar como libertação da imposição de prática alienatórias em verdade se travestiu em um novo modelo de alienação cartesiana, que em nossa realidade contemporânea se manifesta com o ritmo frenético em detrimento da política do capital que torna-nos, a todos, reféns de sua realidade opressora. Sendo assim, percebemos como sintomas desta tortura social a que somos submetidos, as mais variadas doenças de comportamento social e afetamentos psíquicos como, a depressão, os transtornos fóbico-ansiosos (banalmente denominados de síndrome do pânico), de ansiedade, agorafóbicos, de caráter, transtornos obsessivo-compulsivos, violência social, sociopatias, psicopatias, doenças psicossomáticas, histeriformes, enfim, sintomas de pessoas que vivem em uma sociedade que está e avança cada vez mais doente por conta do medo em que vive. Este medo, no meu entender, nada mais é do que a necessidade em se afirmar frente ao meio objetivo ao qual estamos lançados, e no qual vemos as nossas chances de corresponder às expectativas mundanas cartesianistas cada vez mais distantes, no fetichismo consumista que nos diz que sempre temos que ter mais e melhor para que possamos verdadeiramente nos integrar junto a esta sociedade que só nos oprime, pois, nunca há um fim por sempre termos que dar mais e mais, colocando-nos em um círculo vicioso e opressor por nos negar o sentimento de gratificação plena e concorrente realização, de forma a fortalecer o nosso verdadeiro Eu que se adoenta na angústia.

Neste sentido, gostaria de apresentar a reflexão de alguns dos mais respeitáveis pensadores contemporâneos à nossa época, na esperança de corroborar as minhas próprias reflexões.

Prof. Dr. Marco Aurélio Barbosa.

Heidegger e a defesa da autenticidade

O pensamento de Heidegger propicia compreender algumas das facetas mais fundamentais do ser humano que vive nos séculos XX e XXI. A reflexão se faz de maneira profunda, perguntando sobre o sentido do ser e, portanto, é uma reflexão ontológica que possibilita o desvelamento de nossa existência na contemporaneidade. Heidegger empreende uma crítica ferrenha ao modo de vida moderno e propõe também um ultrapassamento da subjetividade moderna, a ressignificação de nossa existência. Faz isso por meio da recuperação da pergunta pelo sentido do ser, segundo o filósofo pergunta totalmente esquecida pelo Ocidente e que não perguntada faz com que a existência seja ignorada. Heidegger é o filósofo que denuncia, já no início do século XX, na cultura ocidental, o famoso esquecimento do ser (seinsverzessenhut), e investigar esta questão se tornou a preocupação central e única de sua filosofia. Segundo Heidegger, a diferença fundamental entre nós e os animais não é a razão e sim o fato de que nós seres humanos somos seres abertos, enquanto os animais são fechados. Nós somos seres-no-mundo, enquanto os animais só se relacionam com o espaço-em-torno. O mundo para os animais é embotado, enquanto para nós é transparente, ou pelo menos pode ser transparente. O ser humano é livre para criar o possível, enquanto os animais apenas cedem às cadeias causais já dadas. O que tem essa comparação a ver com a crítica heideggeriana à modernidade que estamos nos propondo a apresentar aqui? Na modernidade a transparência do mundo fica embotada, pois o indivíduo fica obstruído num modo de vida alienado, em última instância vivendo como que animais. Em Ser e tempo, Heidegger empreende uma espécie de radiografia ontológica do ser humano (Dasein), que possibilita captar a existência humana naquilo que é ôntico existenciário e ontológico existencial. Ao radiografar o humano, indica quais as estruturas existenciais que pertencem ao humano em seu mundo. Heidegger empreende a chamada analítica do Dasein. A primeira das constatações é que a visão moderna forjada logo no início da modernidade de que somos subjetividade de uma objetividade, ou seja, senhores das coisas, sujeitos de objetos e que nossa vida se constitui na relação de dominação e controle sobre o mundo dos objetos é extremamente equivocada. O Dasein, para Heidegger, não é uma subjetividade de uma objetividade, é locanda, ou lugar de abertura em que as coisas são ou acontecem. O ser humano seria uma clareira. É um ente privilegiado, único que pergunta pelo sentido do ser, que tem condições de compreender, de projetar, de criar o ainda-não, de poder ser sempre aquilo que lhe é próprio. Ente inacabado, finito e aberto por essência, ele só é com os outros, só é-com. Porém, a vida social moderna apresenta outro quadro, A vida social é o império do a gente, a ditadura do impessoal, o âmbito em que se confunde o todos nós e o ninguém, na medida em que se age de acordo com o que se pensa em geral. A concepção básica de Heidegger acerca da vida em sociedade é que ela é regida por uma noção obscura de convivência, em que não há sujeitos e sim domina o império do impessoal, de uma sociabilidade truncada, em que nem o eu nem o nós se distinguem. Este impessoal é ele mesmo sem rosto, uma espécie de ninguém que comanda a vida individual e não pode ser identificado com este ou aquele ser humano. Ocorre aqui uma perda do Dasein no espaço aberto da opinião pública [Öffentlichkeit] que tudo devora e nivela por baixo e determina o que cada um deve fazer (WERLE, 2003, p.97-113). Todas as estruturas existenciais apresentadas anteriormente, só aparecem numa vida autêntica, a vida na modernidade manifesta, ao contrário das estruturas anteriores, um ente alienado, fechado, que vive na publicidade (que é um extravio do público), num tempo fixado em dimensões objetivas: Sujeitos de objetos. A libertação do homem da exploração pelo homem, as preocupações ecológicas com o meio ambiente, o controle da violência, são para Heidegger, necessidades urgentes para assegurar a sobrevivência do homem e de toda a terra Segundo ele, na perspectiva onipotente desta segurança, tudo está subordinado ao meio para sobreviver. A sociedade está organizada de forma que o não servir à sobrevivência representa um perigo, uma ameaça, portanto ser, pensar, sentir, saber e fazer devem servir unicamente para garantir a segurança e a sobrevivência e a serviço desta pseudo-segurança se encontra toda a nossa realidade. Heidegger percebeu que sobreviver é a única ambição que vai restar ao homem pós-moderno e, citando Höelderlin, diz: .pouco saber e muita jovialidade é o que foi dado aos mortais.. Pressentindo as mazelas criadas pelo super desenvolvimento, define o ser como funcionalidade e a verdade como operatividade no mundo que foi desenvolvido. Heidegger tenta demonstrar a grande inversão de valores do mundo moderno no que se refere ao conceito de sujeito e objeto, pois o homem passou a ser produto de seu próprio produto, estando em vias de se anular. Segundo o filósofo, na busca desenfreada de auto-asseguramento, o homem reduz toda a grandeza, diminui toda a profundidade, e foge da vitalidade criadora. O poder crescente da automação e do progresso implica uma crescente desumanidade. O homem só poderá se refazer dos malefícios da pós-modernidade ou melhor, suportá-los quando tomar consciência da própria alienação de sua essência, porém procurando sair de sua perdição está construindo uma trilha em qualquer sentido. A história do homem, para Heidegger, É A HISTÓRIA DO ESQUECIMENTO DO SER (ZAJDSZNAJDER, 1992, p.45). Há saída? Há. O Dasein é aberto e se angustia. Quando se angustia descortina o horizonte da existência. Essa disposição que é fundamental e não tem causa no mundo, é do próprio Dasein. A angústia revela o poder-ser-mais-próprio, ele é livre para assumir e consumir a existência de maneira autêntica. O porquê a angústia se angustia não é um modo determinado de ser e uma possibilidade do ser-aí. A ameaça é ela mesma indeterminada, não chegando, portanto, a penetrar como ameaça neste ou naquele poder-ser concreto e de fato. A angústia se angustia pelo próprio ser-no-mundo (...). o mundo não é mais capaz de oferecer alguma coisa nem sequer a co-presença dos outros. A angústia retira, pois, do ser-aí a possibilidade de, na decadência, compreender a si mesmo a partir do mundo e na interpretação pública (HEIDEGGER, 1986, §40, p.187).

O resgate da vida é possível. O ultrapassamento é possível.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

FILOSOFIA DA MENTE

Entende-se por Filosofia da Mente o ramo da filosofia analítica que se preocupa com os fenômenos da mente, no universo de pesquisas que buscam o entendimento sobre a essência da psique, bem como das manifestações e condições mentais gerais. Debruça-se, também, sobre pesquisas que visam estudar os eventos da consciência, uma das esferas mais controvertidas do âmbito filosófico e da neurociência.

Neste sentido, aborda a percepção do entendimento humano quanto às questões do psiquismo com enfoque filosófico.

Abordando vários tópicos do psiquismo humano como o mecanismo da memória, atos intencionais, as ações humanas, cibernética epistemológica do conhecimento, e a dinâmica consonante entre a mente e o corpo, a filosofia da mente busca entender os conteúdos que abrangem o psiquismo, dando ênfase na ciência do conhecimento e a maneira como a estruturação mental desenvolve o seu autoconhecimento e a interação entre os fatores condicionantes mentais e os projetos que eles representam.

A Filosofia da Mente pesquisa da mesma forma tudo que concerne à ação de reconhecimento e modulação de coletas de informações, como os referenciais fundamentais para a assimilação, aprendizado da linguagem e a avaliação subjetiva da consciência. O conjunto de conhecimentos que representa esta disciplina igualmente aborda os hiperativos categoriais elementares éticos, como o fenômeno da liberdade, quase impossível de ser conquistada se a psique se adequar às leis da Natureza.

Neste sentido, os filósofos sempre se debruçaram quanto ao conhecimento da origem do pensamento e sua sede essencial e dinâmica funcional.

O homem nasceu livre e por toda a parte vive acorrentado. ...O dinheiro que temos é o instrumento da liberdade; aquele de que andamos... A natureza nunca nos engana; somos sempre nós que nos enganamos. ... Realmente não sabemos o que é boa ou sorte. (Jean-Jacques Rousseau, s/d)

Kierkegaard contribuiu com a ideia original do existencialismo de que não existe qualquer predeterminação com respeito ao homem, e que esta indeterminação e liberdade levam o homem a uma permanente angústia. Segundo Kierkegaard, o homem tem diante de si várias opções possíveis, é inteiramente livre, não se conforma a um predeterminismo lógico, ao qual, segundo Hegel, estão submetidos todos os fatos e também as ações humanas. A verdade não é encontrada através do raciocínio lógico, mas segundo a paixão que é colocada na afirmação e sustentação dos fatos: a verdade é subjetividade. A consequência de ser a verdade subjetiva é que a liberdade torna-se ilimitada. Consequentemente não se pode, também, fazer qualquer afirmativa sobre o homem. O pensamento fundamental de Kierkegaard, e que veio a se constituir em linha mestra do Existencialismo, é este: inexiste um projeto básico, para o homem verdadeiro, uma essência definidora do homem porque cada um se define a si mesmo e assim é uma verdade para si. Daí o moto conhecido que sintetiza o pensamento existencialista: “... no homem, a existência precede a essência" (KIERKEGAARD, s/d).

Kierkegaard. O dinamarquês Soren Aabye Kierkegaard (1813-1855), encontra sua posição filosófica ao insurgir-se contra posições aristotélicas remanescentes na filosofia, o que faz opondo-se à filosofia de Hegel (1770 - 1831). Kierkegaard não só rejeitou o determinismo lógico de Hegel (tudo está logicamente predeterminado para acontecer) como sustentou a importância suprema do indivíduo e das suas escolhas lógicas ou ilógicas. (KIERKEGAARD, s/d).

A Filosofia da Mente surge no cenário científico do conhecimento oficialmente em 1949, quando o filósofo britânico Gilbert Ryle lança sua obra The Concept of Mind. A partir de então, esta esfera se desenvolve por meio de uma relação interdisciplinar com outras áreas científicas, como a filosofia da ciência, a filosofia da linguagem e a filosofia da psicologia.

The Concept of Mind é um livro pelo filósofo Gilbert Ryle. No livro, ele descreve o que viu como um "erro fundamental" feita por Descartes' dualismo, que sustenta grande parte da filosofia ocidental. No trabalho, Ryle cunhou a frase, "o dogma do fantasma na máquina, para se referir ao" modelo de Descartes. (RYLE, 1949)

Na Introdução de seu livro, Ryle afirma que seu objetivo é corrigir a geografia lógica do conhecimento que já possuímos sobre os poderes mentais e operações mentais. Além disso, ele declara que ele está determinando a lógica transversal dos rolamentos de conceitos. Ao fazer isso, ele compara metaforicamente esses conhecimentos para a leitura de um mapa. Esta atividade mostra a lógica das proposições que são utilizados para comunicar os conceitos. Tal lógica é, para ele, uma metáfora espacial que revela como as proposições de forma consistente precedem e seguem conceitos.

A ideia de Descartes, por exemplo, da separação entre mente e corpo apresenta os fatos que pertencem a uma categoria na linguagem peculiar que é apropriado para outra categoria. (ibidem)

Ryle quer reposicionar os fatos, e não negá-los. Para ele, todo conceito legitimamente pertence a uma determinada categoria (caráter, espécie, natureza). Ele define como tipos de categorias lógicos. A forma que um conceito pertence a uma categoria (tipo lógico), é o mesmo que um conjunto de formas legítimas logicamente de operar mentalmente. Ryle tenta mostrar como ocorrem as operações mentais que violem as regras lógicas. Assim, Ryle pensa da filosofia como a substituição de hábitos ruins como categoria com uma disciplina legal.

Duas importantes correntes recentes da Ciência contribuem com o campo da Filosofia da Mente, a neurociência e a inteligência artificial, a primeira por tentar situar a região do cérebro na qual repousa a consciência, e a outra por tentar produzir máquinas que pensam. Embora estes planos não tenham seguido adiante, foram fundamentais para os avanços da filosofia da mente.

Mas as pesquisas destes filósofos não partem do ponto de vista de que há um espírito, à parte da estrutura orgânica e, particularmente, da cerebral; elas giram sempre em torno de questões vinculadas à ciência do conhecimento, à neurociência, à linguística e à inteligência artificial.

Estas investigações filosóficas procuram desvendar, por exemplo, se a psique é o conjunto dos pensamentos e emoções pessoais, ou uma organização que transcende estes elementos; se a mente é um ser de natureza física; se a estrutura mental e a orgânica interagem entre si, entre outras tantas dúvidas que ainda pairam sobre a Ciência e a Filosofia.

Hoje a filosofia da mente disponibiliza uma vasta bibliografia, que procura dar conta de inúmeras questões e enigmas, sobre os quais discorrem cientistas e filósofos em incontáveis livros e artigos, que esmiúçam o conteúdo da psique, as características da mente, suas condições intrínsecas.

Nota: Para um maior entendimento do que é a filosofia da mente, sugiro a leitura da obra:

O QUE É FILOSOFIA DA MENTE

De João de Fernandes Teixeira

Obra que foi originalmente publicada em 1994 pela Editora Brasiliense na Coleção Primeiros Passos, sob número 294. Acessível em: http://www.filosofiadamente.org/images/stories/pdf/o_que_e_filosofia_da_mente.pdf


Por: Dr. Marco Aurélio Barbosa

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_da_mente
http://www.filosofiadamente.org/
Vladimir Safatle. O Filósofo e suas lágrimas, in Discutindo Filosofia. Escala Educacional. Ano 2, Número 8, pp. 16-21.

http://en.wikipedia.org/wiki/The_Concept_of_Mind acessado em 15/11/2010.

http://www.cobra.pages.nom.br/ftm-existencial.html acessado em 15/11/2010

http://www.netmarkt.com.br/frases/jeanjacquesrousseau.html acessado em 15/11/2010