terça-feira, 19 de abril de 2016

PSIQUIATRIA E PSICANÁLISE CONCEITOS TÉCNICO-CIENTÍFICOS

PSIQUIATRIA E PSICANÁLISE

À primeira vista pode suscitar estranheza que a Psiquiatria ao invés da Teoria Psicanalítica seja apontada em primeiro lugar, principalmente quando o presente artigo e desenvolvido por um Psicanalista. Tal priorização não se dá por presunção dessa ciência médica, toda via, é nessa especialidade médica que está situado todas as demais ciências do psiquismo e do comportamento humano, bem como, estabelece seus parâmetros e limites.
Deve-se, também, ter em consideração as patologias mais pertinentes ao psiquismo que compreendem a universalidade do que é psicogênico:
“As doenças Psicogênicas, conhecidas anteriormente como doenças “histéricas”, podem ter muitos sintomas severos tais como grampos ou a paralisia dolorosa mas sem nenhuma explicação física. Contudo, a pesquisa nova da Universidade de Cambridge e de UCL (University College Londres) sugere que os indivíduos com doença psicogênica, que é dizer a doença física que hastes dos esforços emocionais ou mentais, tenham os cérebros que funcionam diferentemente.”
Podemos dizer de maneira mais sintética que a enfermidade psicogênica está relacionada às lesões que de alguma forma alteraram a estrutura da psique, sendo a lesão, funcional, degenerativa ou abrasiva.
Vejamos as diferenças:
·         Na estrutura encontramos todas as psicoses, transtornos, oligofrenias, surtos, etc. Nessa perspectiva todas as patogenias estruturais encontram uma lesão que as define e determina. Obs. O termo lesão aqui adotado não representa qualquer tipo de trauma na anatomia física Apontamos também, aqui as neuropatias, em que o sistema nervoso, nas áreas central e periféricas, também apresenta lesão, saturação ou stress.
·         A teoria estrutural, no entanto, transita conceitualmente quando nos referimos às neuropatias, pois conceituamos estrutura com base no que é físico, logo, orgânico não nos atendo ao psiquismo que figura em todo o processo estrutural/psicogênico.
·         Não-estrutural varia, no entanto, quando nos referimos às psicopatias em que não são encontradas lesões nem na esfera funcional, degenerativa ou abrasiva. Tendo essa premissa em vista, toda e qualquer neurose não consiste ser estrutural fazendo parte do universo assimilável, ou seja: experiências, vivências, traumas, recalques, principalmente quando relacionados com a “libido” (gratificação e obtenção do prazer), ou fixação problemática.
·         Portanto, a Psicanálise se ocupa de desordens psíquicas na esfera não estrutural, enquanto a Psiquiatria atenta para o tratamento das psicopatologias estruturais/psicogênicas.
·         Já a Neurologia atenta para as patologias estruturais/ neurológicas.

Epidemiologia: “As doenças mentais e neurológicas atingem aproximadamente 700 milhões de pessoas no mundo, representando um terço do total de casos de doenças não transmissíveis, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os especialistas advertem que pelo menos um terço dos que sofrem com problemas mentais e neurológicos não tem acompanhamento médico. A revelação está no Plano de Ação para a Saúde Mental 2013-2020”. (Agência Brasil de Comunicação, Brasília – DF 2013).
  Numa outra abordagem, é da perspectiva da psiquiatria que visualizamos a independência da psicanálise como ciência autônoma nos estudos e intervenções do psiquismo humano e onde também, se faz a delimitação das áreas de competência técnico e científica entre ambas. Neste tocante é fundamentalmente necessário que se explicite de forma bem clara e inteligível que a Psicanálise não consiste ser uma subespecialidade da Psiquiatria e também, não é especialidade médica. São, sim ciências autônomas afins, porém completamente definidas e atentando para o cuidado de partes específicas do psiquismo que não se confundem.
Essencialmente, os objetivos e perspectivas são diferentes. Vamos ver:
·         Os distúrbios mentais podem ser subdivididos em duas categorias fundamentais: estruturais e não estruturais.
·         Os estruturais, observamos que esses são subdivididos em psicogênicos e neurológicos (embora o conceito seja ainda diferente do último caso, pois compete ser área da neurologia, ex.: doenças de origem neurológica que afetam a mente, como a demência do tipo Alzheimer a título de exemplificação)
·         Os psicogênicos competem à Psiquiatria.
·         Os neurológicos competem à Neurologia.
·         Os não estruturais e não psicogênicos competem à psicanálise.

Marco Aurélio Barbosa
Psicanalista Clínico, Professor e Filósofo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


SILVA, Heitor Antônio. Psiquiatria aplicada à psicanálise. 4° ed. Ver. e ampl. – Niterói, RJ: SPOB, 2001.

http://www.news-medical.net/news/20130225/9846/Portuguese.aspx
em 19/04/2016


http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2013-05-20/oms-doencas-mentais-e-neurologicas-atingem-cerca-de-700-milhoes-de-pessoas-alerta-oms em 19/04/2016

PACIENTE FÓBICO

PACIENTE FÓBICO

Psicopatologia e Psicodinâmica
Tendo em vista os princípios do psiquismo e da dinâmica do comportamento fóbico que se apresenta de forma relativamente simples a um primeiro olhar. O psicanalista iniciante sente certa dificuldade na avaliação do anamnese durante a entrevista ao paciente. O paciente que apresenta sintomas neuróticos obsessivos ou histéricos aparenta ser mais complexo, todavia, o profissional virá a perceber que esse tipo de paciente neurótico apresenta em geral, problemas tenazes na sua entrevista. Rapidamente tende a desenvolver conceitos “místicos” sobre o psicanalista, o que promove, com certa frequência, fonte de resistência para com o profissional.
O comportamento fóbico é percebido com muita variedade de síndromes neuróticas e/ou psicóticas. O indivíduo fóbico encontra-se num embate emocional interno concomitante a sintomas ansiosos na tentativa de reprimir seus pensamentos e pulsões perturbadoras. No insucesso dessa repressão, desloca o seu conflito interno para um objeto, afeto, situação ou lugar na tentativa de compensar o seu conflito interior buscando reprimir a sua ansiedade a referida deslocação situacional. Representando simbolicamente a partir desse momento o embate existente no interior do seu psiquismo, no afã de atenuar ou mesmo evitar com que essa pressão avassaladora continue a impor-lhe as demasiadas cargas de sofrimento psicológico. É nessa dinâmica que consolida essencialmente a fobia. O sintoma, geralmente central, é condensação simbólica que está relacionado a aspectos de desejos reprimidos e sob pressão na busca de sua gratificação mesmo que inconsciente, mas em geral relacionados anseios com pressões de meio objetivo frustrados. O mecanismo defensivo do medo leva a uma constrição global da personalidade, promovendo no indivíduo um enclausuramento renegando sua liberdade e gratificação de prazer, haja vista a impossibilidade de ação objetiva e material, no sentido de gratificar o anseio reprimido em face da frustração imposta pela situação em que vive.

Marco Aurélio Barbosa

Psicanalista Clínico, Professor e Filósofo.

TRANSTORNO DE ANSIEDADE SOCIAL OU FOBIA SOCIAL

Transtorno de Ansiedade Social ou Fobia Social
O TAS pode ser entendido como uma vivência exagerada e persistente de ansiedade a estranhos. Crianças com até 2,5 anos tendem a não se sentir confortáveis perto de pessoas não familiares, evitando estabelecer uma comunicação assertiva. Este comportamento é esperado para a idade e deve ser entendido como parte do desenvolvimento infantil normal. Entretanto, após este período, se o estranhamento persistir e interferir na construção de uma vida social, é possível que este desconforto tenha se tornado patológico (Chavira & Stein, 2005).
O DSM-IV-TR apresenta os seguintes critérios diagnósticos para o TAS: medo acentuado e persistente, excessivo ou irracional, em uma ou mais situações sociais ou de desempenho, que envolvam a exposição a pessoas estranhas ou a possível gozação de terceiros. Presença de resposta imediata de ansiedade, caracterizada muitas vezes como um ataque de pânico, resultante da antecipação ou do contato com a situação social temida. Reconhecimento de que o medo é irracional ou desproporcional. As situações sociais e de desempenho temidas são constantemente evitadas, ou suportadas com intenso sofrimento, resultando em prejuízo funcional significativo. O quadro não se deve à ingestão de alguma substância (drogas de abuso ou medicamentos), condição médica geral e não é melhor explicado por outro transtorno mental (APA, 2000).
Apesar de não configurar um critério diagnóstico, a presença de sintomas somáticos é comumente descrita nos momentos de antecipação e exposição à situação social temida. Palpitações, tremores, sudorese, desconforto gastrointestinal, diarréia, tensão muscular, rubor facial e confusão mental são os sintomas mais freqüentes (APA, 2000).
Em crianças e adolescentes, algumas considerações acerca dos critérios descritos acima devem ser feitas para que o diagnóstico se confirme. O TAS só pode ser diagnosticado em crianças que apresentam habilidades sociais adequadas a sua idade, com pessoas que lhe são familiares. Outra consideração importante é a necessária presença de ansiedade em situações sociais que envolvam outras crianças e não apenas na interação com adultos (APA, 2000).
Crianças e adolescentes com TAS não precisam reconhecer o medo que sentem como irracional ou desproporcional, mas os sintomas devem ter duração mínima de 6 meses. Este critério é exclusivo para infanto-juvenis, ou seja, para menores de 18 anos (APA, 2000).
A resposta ansiosa da criança tende a ser diferente da apresentada pelo adulto. Diante da situação temida, a criança procura se afastar do ambiente com pessoas estranhas e buscar proteção e segurança junto a pessoas familiares, em especial junto aos pais. Além dos ataques de pânico, o choro e a imobilidade também são reações apresentadas como resposta ansiosa pela criança (Ashbahr, 2004).
Crianças com TAS referem passar por situações sociais ansiogênicas quase todos os dias. A escola é o ambiente onde 60% dos eventos estressores listados pelas crianças ocorrem. A lista das situações mais temidas inclui: conversar com outras crianças, fazer provas, apresentações artísticas e leitura em voz alta (Beidel et al., 1999).
Um estudo de Beidel et al. (1999) identificou as situações mais ansiogênicas para pré-adolescentes. A leitura em sala de aula, escrever no quadro negro, apresentações artísticas ou esportivas e conversar com pessoas da mesma idade e com adultos, foram apontados como situações difíceis de serem enfrentadas pelo grupo. Hofmann et al. (1999) identificaram interações informais, com pessoas da mesma idade, como a pior situação social a ser enfrentada entre adolescentes (citado por Beidel et al., 1999).
A fim de se esquivarem do desconforto causado por interações sociais temidas, crianças e adolescentes com TAS evitam ir ao quadro negro na sala de aula, brincar em grupo ou usar o banheiro da escola (Chavira & Stein, 2005). A principal conseqüência deste comportamento evitativo é a dificuldade, ou mesmo a incapacidade, de fazer amizade com pessoas da mesma idade (Beidel et al., 1999). Alguns autores encontraram que, além do comprometimento das habilidades sociais, crianças e adolescentes acometidos por TAS apresentam pior desempenho em tarefas que envolvam leitura em voz alta e fluência, se comparadas com infanto-juvenis normais da mesma idade (Spence et al.,2001; Beidel et al., 1999; Essau, Conradt & Peterman, 2000).
O comportamento de esquiva parece se tornar mais freqüente com a idade (Beidel et al., 1999). Essau et al. (2000) encontraram que 65,4% da amostra de adolescentes, com sintomas marcantes de ansiedade social, relataram ter evitado, pelo menos algumas vezes, situações sociais desconfortáveis. A maior autonomia dos adolescentes é apontada como principal causa para que o comportamento evitativo cresça em função do tempo (Beidel et al., 1999).
Crianças e adolescentes com TAS tendem a interpretar as situações cotidianas como mais ameaçadoras do que crianças que não apresentam este diagnóstico (Chavira & Stein, 2005). Aquelas com idades entre 10 e 12 anos e adolescentes com TAS, além de interpretarem o ambiente como ameaçador, tendem a desenvolver pensamentos negativos sobre si mesmos e sobre suas capacidades para lidarem com situações sociais (Spence et al., 2001).
O curso do TAS é variável e o prejuízo social tanto pode ser mantido na adolescência e vida adulta, como pode melhorar espontaneamente. Há um alto índice de comorbidades entre TAS e outros transtornos, inclusive com Abuso de Substâncias quando o TAS se torna crônico (Essau et al., 2000)
A taxa de prevalência de TAS na população infanto-juvenil norte-americana se apresenta em torno de 2,5%, sendo mais prevalente em meninas (Chavira & Stein, 2005). Dois grandes estudos epidemiológicos da Alemanha encontraram que 0,5% das crianças e entre 2 e 4 % dos adolescentes tinham TAS (Essau et al., 2000; Wittchen, Stein & Keessler, 1999). Pesquisas epidemiológicas sugerem que o TAS pode ser mais freqüentemente encontrado em adolescentes do que em crianças (Chavira & Stein, 2005), com prevalência de 5% em adolescentes com idades entre 12 e 18 anos (Costello et al., 1999; Ferdinad & Verhulst, 1995).
Apesar da maior incidência acontecer por volta de 14 ou 15 anos de idade, o diagnóstico pode se dar em qualquer idade, sendo relativamente comum em crianças com 7 e 12 anos de idade (Chavira & Stein, 2005; Spence, 1998). Há evidências de que o início precoce aumenta a probabilidade do quadro se tornar grave e crônico, havendo uma abrangência maior de situações sociais temidas e um prognóstico menos promissor (Chavira & Stein, 2005; Beidel et al.,1999). Chavira e Stein (2005) identificaram a depressão maior, o TAG, as fobias específicas e o TDAH como principais comorbidades em uma amostra clínica.
A presença do TAS na infância e adolescência é um fator de risco para prejuízos funcionais importantes no adulto (Chavira & Stein, 2005). Estudos prospectivos mostraram que o adulto com histórico de TAS muitas vezes apresenta uma história de fracasso escolar, acompanhada de baixa autoestima e solidão (Francis et al.,1987). O quadro na infância possui forte associação com outros transtornos de ansiedade, depressão, abuso de substâncias e tentativa de suicídio na fase adulta (Chavira & Stein, 2005).


O FENÔMENO DA TRANSFERÊNCIA NA PSICANÁLISE

O FENÔMENO DATRANSFERÊNCIA
           
            O primeiro momento do conceito de transferência em Freud (1905) e o texto “Dinâmica da transferência” (1912). Veremos outro texto importante de Freud sobre este conceito, o “Recordar, repetir e elaborar” (1914).
            Neste texto em questão, Freud ressalta o caráter de repetição presente no fenômeno transferencial, afirmando:
      (...) o paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e recalcou, mas expressão pela atuação ou atua-o (acts it out). Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber que o está repetindo. (Freud, 1914, p. 165).

            Sendo assim, Freud demonstra claramente o caráter de repetição presente no fenômeno da transferência. Ao invés de recordar, de associar, o paciente age, sem saber o que faz ou porque faz. Desta forma, o repetir em ato do clichê estereotípico com o analista constitui uma resistência ao trabalho da análise, porque o objetivo da mesma é colocar o sujeito para falar, elaborando suas questões relacionadas a representações e fantasias inconscientes. Quando não fala e age, o paciente resiste ao trabalho da análise, à regra fundamental da mesma: a livre associação.
            Com relação à repetição, Freud afirma que o é repetido pelo paciente são idéias recalcadas e fantasias, moções, nexos de pensamento. Estes últimos constituem algo que não pode ser esquecido porque nunca foi consciente; demonstram que o Inconsciente é maior que o recalcado.
            Essa repetição em ato, Freud chama de compulsão à repetição, expressão que será usada por ele, em 1920, para falar daquilo que se situa além do princípio do prazer – a pulsão de morte. Sendo assim, já podemos ver indícios do que Freud vai teorizar mais tarde, neste texto “Além do princípio do prazer”, onde a transferência é mencionada e estudada como um fenômeno clínico que apresenta um viés de pulsão de morte, explicação freudiana para a resistência do paciente em análise com relação ao tratamento.
           
            O que o paciente repete? Pergunta-se Freud, neste texto de 1914. Diz ele: o paciente repete tudo – suas inibições, atitudes, traços patológicos, etc - o que já avançou a partir das fontes do recalcado para a sua personalidade manifesta. “Repete também todos os seus sintomas, no decurso do tratamento” (p. 167).
            A partir dessa afirmação, entramos no conceito de neurose de transferência, uma neurose artificial, provocada pela situação analítica, em torno da qual tendem a se organizar as manifestações da transferência. É uma nova edição da neurose clínica, que se constitui a partir da relação do paciente com seu analista, e a sua elucidação leva à consideração da neurose infantil.
      A transferência cria, assim, uma região intermediária entre a doença e a vida real, através da qual a transição de uma para outra é efetuada. A nova condição assumiu todas as características da doença, mas representa uma doença artificial, que é, em todos os pontos, acessível a nossa intervenção. Trata-se de um fragmento de experiência real, mas um fragmento que foi tornado possível por condições favoráveis, e que é de natureza provisória (FREUD, 1914, p. 170).

            A transferência é ainda vista por Freud como um playground, um terreno onde acontece tudo que diz respeito ao tratamento e onde os sintomas, um por um, podem ser desfeitos, a partir da intervenção do analista.
            Quando, pelo manejo da transferência, o paciente se dá conta do que fez e atuou, o mesmo pode questionar esse ato, e elaborar as questões que determinaram essa atuação – ou, pelo menos, boa parte delas. Mas esse processo de elaboração leva tempo, um tempo que não segue o tempo do relógio e que não pode ser apressado pelo analista. É preciso lembrar que a resistência acompanha o tratamento o tempo todo e, por isso, em certos momentos do tratamento, as associações ficam raras ou tem-se a sensação que quase não se anda; ao contrário, em outros momentos, fica-se com a impressão de que se andou muito em pouco tempo.
            Mas é justamente essa elaboração das resistências – que se apresentam como transferência – que constitui a parte do trabalho que dá os maiores resultados e que faz com que a psicanálise seja uma prática completamente diferente de todas as outras.

            Além dessa afirmação de que uma análise leva tempo, Freud, no texto “Sobre o início do tratamento” (1913), afirma que essas questões relativas ao tempo devem ser colocadas claramente no início de análise, para o paciente.
            Também devem ser colocadas claramente, e logo de cara, as questões relativas ao dinheiro. Isso porque não só há um trabalho sendo feito e o médico – analista precisa receber pelo seu tempo de trabalho, mas também porque o dinheiro numa análise traz a tona questões libidinais, relativas à sexualidade. Em quê e como investimos nosso dinheiro mostra o que é importante para nós, em que investimos nossa energia psíquica.
            Para Freud, a psicanálise é um tratamento caro e que exige uma dedicação, um investimento do sujeito. E quando falamos caro, estamos mencionando o valor monetário mas também o valor simbólico que o sujeito dá ao seu tratamento. Mesmo sendo caro, diz Freud: “nada na vida é tão caro quanto a doença – e a estupidez” (1913, p. 148).
            O dinheiro precisa ser tratado com o paciente de modo franco e tem efeito regulador, diminuindo a resistência ao tratamento basicamente por dois fatores: demonstra que a relação analista-analisando não é somente uma relação amorosa e induz o analisando a querer melhorar logo, para poder parar de pagar ao seu analista, e poder encerrar a sua análise.
            Esses itens precisam ser colocados de modo claro logo no início do tratamento, para que o mesmo possa transcorrer. Sem o efeito regulador do dinheiro e sem a clareza de que uma análise demora – sem podermos precisar o quanto -, caímos no risco de aumentarmos muito as resistências ao tratamento e inviabilizarmos uma análise.
            Outra questão que Freud comenta neste texto é a função do divã numa análise. Ele serve para evitar “(...) que a transferência se misture imperceptivelmente às associações do paciente, isolar a transferência e permitir-lhe que apareça, no devido tempo nitidamente definido como resistência” (p. 149)

            Deste modo, vemos nestes dois textos de Freud aqui trabalhados, as duas vertentes do fenômeno transferencial: a repetição como resistência, e a condição fundamental de análise. Sendo assim, o manejo da transferência, para Freud, é a parte do trabalho que dá os maiores resultados, mas também a parte mais difícil de uma análise.

Autor desconhecido.



PERTURBAÇÕES MENTAIS COMENTÁRIO DO LING SHU (Tratamento por Acupuntura Clínica)

PERTURBAÇÕES MENTAIS COMENTÁRIO DO LING SHU
(Tratamento por Acupuntura Clínica)

“os Sábios europeus são, neste momento, castas de conjurados ou de iniciados que fizeram da Ciência uma espécie de monopólio, e que não querem de modo algum que se siba mais, ou de um modo diferente do deles”.
J. de MAISTRE
(Soirées de Saint-Pétersbourg)

INTRODUÇÃO
O “Ling Shu” consiste de literatura que marca uma reviravolta na aplicação prática da medicina chinesa (MTC). Desde o início do desabrochar dessa forma terapêutica na Europa, se não faltaram as obras europeias, foi sempre difícil conseguir documentos de base. As primeiras obras devidas à Soulié de Morant e em seguida ao Dr. Chanfrault foram , na época, documentos preciosos que apresentavam uma vantagem: os autores tinham vivido na Ásia, consultado textos, feito traduzir manuscritos e avaliado na fonte o espírito em que esse método devia ser utilizado        .

O termo Dian-kuang designa, em geral, a psicose maníaco-depressiva.
Segundo Y. Pélicier (1984), a psicose maníaco-depressiva é uma “alternância de estados depressivos melancólicos e de acessos maníacos, é também chamada de psicose periódica”.
O termo chinês Dian – aplica-se a doenças alojadas no vértex. A palavra Kuang expressa o acesso maníaco.
A loucura é um termo vago que evoca o “vento”. A China não escapa a essa regra. O termo Feng (loucura) é a chave das doenças e do termo “vento”. O doente está dominado pelo feng (vento, loucura)que suscita as perturbações mentais. É preciso, então extirpar essa “energia perversa”.
O Ling-Shu apresenta indicações preciosas que foram elucidadas pelos historiadores ocidentais.
“No meio do mundo sereno da doença mental, o homem moderno não mais se comunica com o louco: há de um lado, o homem de razão que alega a loucura ao médico, não permitindo assim o relacionamento senão por intermédio da universidade abstrata da doença; por outro lado, há o homem da loucura que só se comunica com o outro por intermédio de uma razão igualmente abstrata, que é ordem, constrangimento físico e moral, pressão anônima do grupo, exigência de conformidade” (M. Foucalt).
Quando falamos em psicose maníaco-depressiva aos olhos da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) falamos de uma “energia perversa” que perturba o Shen (porta do espírito) expresso pela simbologia do “vento-loucura”, que afeta a mente do indivíduo.
O Zang-Fu que é o sistema de órgãos e vísceras da MTC aponta que o tratamento por acupuntura consiste em dispersar o Yang Hiperativo, o Fogo Crescente, a agitação do Vento Interno e a Mucosidade, harmonizar o Qi (energia), e acalmar a mente e clarear o cérebro. Visto que o Yang, o Fogo e o Vento tendem a crescer e obstruir os canais da cabeça, para o tratamento são importantes os pontos de acupuntura situados na cabeça e os pontos situados nos membros, principalmente abaixo dos joelhos e dos cotovelos (pontos Shu antigos), e aqueles relacionados com os canais dos Rins, Coração, Circulação- Sexo e Fígado, podem ser utilizados como pontos secundários. São utilizados os métodos de tonificação, de dispersão e de harmonização e em alguns casos com a aplicação de moxa (Artemísia Vulgaris), ou com o estimulador elétrico.

Por Marco Aurélio Barbosa
Psicanalista Clínico, Professor e Filósofo

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Ed. Martins Fontes. 2007.

LAPLANCHE, Jean e PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo – SP. Ed. Martins Fonte, 1990.

WONG, Ming. Ling-Shu – Base da Acupuntura Tradicional Chinesa. São Paulo. Ed. Andrei. 1995

ROSS, Jeremy. Zang-Fu: Sistemas de Órgãos e Vísceras da Medicina Tradicional Chinesa. São Paulo. Ed. Rocca. 1994.


O DIVÃ NA PSICANÁLISE

A história, a simbologia e a contemporaneidade do divã, móvel emblemático do ambiente psicanalítico com todos os seus significados 


"Meu eu interior derreteu-se, logo que me coloquei no sofá velho, esfarrapado. Como o meu corpo afundou no macio de algodão, a minha alma desmoronou com ela, as lágrimas encheram meus olhos. Não teria sido o mesmo se eu estivesse sentado em uma cadeira. Qualquer coisa que suporta minhas costas reforça minha resistência."


Essa ode ao divã – peça irremovível do cenário psicanalítico que nele persiste mesmo quando nele não está presente – foi entoada por um paciente, conforme descrito por Sebnem Senyener, jornalista e novelista turca, em seu artigo “How the divan became the couch?“. Revela também o papel desse móvel – menos um mobiliário inerte, mais um interlocutor da dinâmica psicanalítica – que se tornou tão símbolo da psicanálise como o próprio Freud. Pode-se dizer mesmo que a psicanálise não se reconhece como tal sem o divã, em que pese a peça não ser exclusiva dos consultórios, nem ter “nascido” com o advento da psicanálise. Mas há que se reconhecer que sem a técnica criada, nominada, desenvolvida e difundida por Freud, essa peça de mobília – hoje com ares de vanguarda, art noveau, que serve como espreguiçadeira para o corpo e expansiva para a mente – não passaria de um sofá sem encosto, esquecido no canto da sala.
A Berggasse 19, em Viena, Áustria, abrigou o consultório de Freud entre 1891 e 1938, quando o psicanalista fugiu para Londres, escapando das garras do nazismo que haviam se apoderado da Áustria. O divã foi com ele. Peter Gay assim relata o fato em “Freud, Uma vida para o nosso tempo” (Cia. das Letras, 2005): “Os bens que tivera de resgatar das mãos dos nazistas – seus livros, antiguidades, o famoso divã – finalmente haviam chegado [a Londres], e foram arrumados de modo que os dois quartos do térreo se pareciam muito com seu consultório e o escritório anexo na Berggasse 19”. Quando Anna Freud, filha do psicanalista, morreu, o divã foi para o Freud Museum, em Londres, onde se encontra até hoje e onde pode ser apreciado (e o é por cerca de 40 mil pessoas por ano) em toda a sua sisudez e sobriedade. Trata-se de uma peça que seria absolutamente vulgar não tivesse ocupado na paisagem da nascente técnica freudiana um lugar tão especial, constituindo mesmo um sinônimo da psicanálise.
Isso porque o divã aparece no setting junto com a técnica freudiana. Gay, o mais renomado biógrafo do austríaco, diz: “Freud usou pela primeira vez o termo psicanálise em 1896, em francês e a seguir em alemão. Mas desde algum tempo antes, ele vinha trabalhando na direção da psicanálise. De fato, o famoso divã, presente de agradecimento de uma paciente, fazia parte da mobília de seu escritório, quando mudou-se em setembro de 1891, para a casa da Berggasse, 19”. Em nota de rodapé observa: “Entre algumas anotações que Marie Bonaparte compilou para uma biografia de Freud, encontra-se o seguinte apontamento sem data, em francês: “Madame Freud me informou que o divã analítico (que Freud levaria para Londres) foi lhe dado por uma paciente agradecida, Madame Benvenisti por volta de 1890”). O divã chega assim às mãos de Freud por meio de uma ex-analisanda que lhe quis fazer um mimo e, com isso, colabora na construção de uma das mobílias mais icônicas da história.

Comensais no Leito
Uma peça que entra na história pelas mãos dos romanos. No auge do Império, os comensais se deleitavam com quitutes como arganazes e perdizes, debruçados sobre divãs. A peça também era central nas orgias promovidas pelos cidadãos de Roma. Muito mais tarde, o califa Omar I, responsável pela expansão do Islã pelo norte da África e Europa entre os anos de 634 e 644, instituiu uma lista de pensão chamada divã. Todo soldado que tivesse seu nome na lista recebia bens dos povos conquistados. O vocábulo divã passou, por extensão, a significar instituição financeira e no século XVI, no Império Turco-Otomano, a identificar a sala onde se reunia o Conselho de Estado. Para o seu conforto, os líderes otomanos se valiam de almofadões neste Conselho e logo essas almofadas começaram a ser designadas por divã. Os turcos levaram a moda a Europa que lá se fixou onde começou a recobrir sofás, e assim – a exemplo do que ocorreu com o Conselho – tomar-lhe a “identidade”. Sofá virou divã.
Mas até Madame Benvenisti presentear Freud com um divã azul, a peça era apenas elemento de decoração. No consultório do psicanalista foi muito mais do que isso. De novo Gay: “O famoso divã constituía por si só um espetáculo, amontoado de almofadas, com um tapete aos pés para uso dos pacientes, caso sentissem frio e coberto por um tapete persa, um Shiraz.” A elegância e tranquilidade aparentes que convidavam o paciente a deitar-se e a divagar por sua história não traduzia a tempestade emocional que poderia assolar o analisando. Recostado em seu leito, de costas para o analista, com vistas para o teto – metáfora do que pode ser impeditivo ou do que pode ser rompido – o consulente se ajusta a um espaço que já foi comparado ao leito de Procusto, o personagem da mitologia grega que oferecia repouso aos viajantes. Seria um belo anfitrião não tivesse ele o hábito de amputar os membros daqueles que não se ajustavam às medidas da cama ou esticar os que não a preenchessem por inteiro.
O divã do analista, em verdade, é tanto pró como anti-procustiano. Procusto, que significa “o esticador”, mantinha-se intolerante às diferenças imanentes entre as pessoas e procurava igualá-las cortando ou estendendo seus corpos, tendo por medida seu leito, um leito que só se ajustava a ele, Procusto. À Pallas Atenas, deusa da sabedoria, alega: “As diferenças são injustas pois permitem que uns se sobressaiam e subjuguem os demais; minhas camas acabam com as diferenças, igualando a todos os homens. Isto é justo. Isto é razoável.” Aqui, o divã do analista revela sua faceta procustiana, seja qual for a face que se olha. Por um lado, iguala as pessoas permitindo que todas deem corda aos seus instintos primitivos, ao oferecer um colo que pode ser o do pai, da mãe ou de alguém próximo. Por outro, reconhece a singularidade de cada um e se adapta às suas demandas, abrindo mão de dogmas, teorias e constructos que por mais “gerais” que sejam precisam ser especificados no setting.
Contratransferência Latente
Esse lugar incomum ocupado pelo divã na clínica não ocorreu por acidente. Freud cedo percebeu que o paciente precisava de algo que o dispusesse a liberar sua mente e, de preferência, sem a interferência do olhar do analista. O convite ao divã, feito pelo analista ao analisando, funciona como uma espécie de contrato terapêutico. A peça é um significante – no sentido mais lacaniano do termo – que explicita a aceitação da transferência entre os dois agentes da clínica. Citando Fenichel em “Problemas da técnica analítica”, Yara Belchior destaca: “O divã é um relaxamento para o paciente e alívio para o analista do incômodo de ser olhado”. O móvel serve, deste modo, de facilitador entre os agentes do diálogo. Promove, no analisando, o expressar livre e desassombrado dos seus conteúdos, e protege o analista que pode expressar caras e bocas sem o perigo de ser reconhecido pelo analisando como alguém que se choca com o que ouve. O efeito de tais esgares no paciente pode ser devastador. 
Isso porque há uma idéia de cumplicidade entre analista e analisando. Deitado no divã, o paciente se coloca na posição de quem recebe (embora seja ele o que mais emita) e isso pode ser pouco confortável para vários deles. Há pacientes que se sentem frágeis, vulneráveis não só por estarem deitados como por perderem de vista a face do analista. Se o atendimento ocorrer, portanto, com o paciente sentado ou recostado, olhando e sendo olhado pelo analista, este precisa trafegar na difícil fronteira entre o interesse genuíno (que estimula o paciente a falar) e a serenitude plástica (que recebe o conteúdo do paciente sem emitir juízo de valor por meio de expressões faciais). Um psicanalista treinado, experiente, conseguirá realizar esse feito com razoável competência, ainda que uma vez ou outra escorregue em emoções ou mesmo falas que traem uma contratransferência latente. Mas não é o caso de se punir, porque o paciente voltará para a próxima sessão. O prejuízo não é perene.
Estamos falando, afinal, de pessoas. O sujeito sentado à cabeceira do divã é tão humano quanto o sujeito deitado no leito. E essa proximidade – quando não o face to face mais completo – permite recolher os mais antigos fragmentos da história, quando o divã era peça de festivais sexuais na Roma dos césares. A sexualidade e suas (não) manifestações sempre foram o arcabouço constituinte da teoria psicanalítica e o próprio divã, que serviu para o repasto de corpos entre os romanos, continuou com essa vocação ao longo da história até se depositar na psicanálise. A pintura orientalista do divã coberto com tapetes e almofadas, geralmente com uma odalisca seminua deitada sobre ele é característica. No tempo de Freud, a figura deixava entrever a idéia, corrente na Europa, sobre a sexualidade dos turcos, tidos como viciados em todos os tipos de experiência erótica, algo que o Ocidente judaico-cristão tanto execrava como invejava. Qualquer artigo turco vinha carregado dessa simbologia sexualizada.

Potência Turca
O divã de Freud era coberto por tapetes turcos. O primeiro deles lhe foi presenteado por Moritz, um parente distante. Comerciante em Salônica, à época uma província do Império Turco e um centro do comércio de escravos brancos, Moritz adquiriu o tapete na cidade portuária turca de Izmir (atual Esmirna). Sabedor da idéia que os europeus faziam dos turcos em relação ao sexo, Moritz muito provavelmente deu a conhecer a Freud sobre o uso nada incomum que esses faziam de tais tapetes, ao embrulhar nestes as escravas com as quais se presenteavam, numa reencenação da clássica aparição de Cleópatra diante de César. Senyener, no artigo citado, diz que Freud, em uma viagem à Bósnia-Herzegovina [que fazia parte do Império Austro-Húngaro] a fim de observar os hábitos de seu povo – como ele mesmo viria a informar vários colegas, não se deu conta de um detalhe primordial em sua vida naquele momento: sua cunhada Minna, então objeto presumido, controverso – e nunca confirmado – de sua paixão (*).
Senyener continua: “É assim que o divã "tornou-se um veículo de confissão para o Oeste”. Uma confissão surda que Freud procurou esconder/sublimar também no divã. Ao tapete que ganhou de Moritz seguiram-se vários outros com os quais ele recobriu o divã, o chão e as paredes do consultório, numa tentativa – talvez – tanto se apropriar da “potência turca” exibindo-a por meio dos acessórios, como também de camuflar o leito de Procusto onde possivelmente desejava Minna. Não sem razão é por essa época, Freud escreve “Morte e Sexualidade” e faz nova visita a Trebinje, próximo a Ragusa, na Bósnia Herzegovina durante o verão de 1898. O que Freud foi buscar entre os turcos ainda é motivo de controvérsia, mas em contato com o Dr. Alois Pick médico austríaco que servira na guarnição local, este lhe falou sobre o caráter geral e a sensibilidade dos "turcos" (o termo “turco” era reservado a maioria dos habitantes da Bósnia) que mesclava resignação admirável em relação às vicissitudes do destino e um hedonismo sexual de importância verdadeiramente suprema.
Peter J. Swales, historiador galês da psicanálise, em seu artigo "Freud, Death and Sexual Pleasures: On the Psychical Mechanism of Dr. Sigm. Freud" (Arc de Cercle, vl. 1, jan. 2003) lembra que o ensaio escrito por Freud, em 1898 (“Morte e Prazer Sexual") estava relacionado com a notícia de um paciente sexualmente perturbado que se matou. Quatro anos antes, consultara seu amigo Breuer sobre sintomas cardíacos que vinha apresentado. No entanto, em 1898, ele já não acreditava que tivesse alguma doença cardíaca. Swales conclui que "a ambiguidade da noção do coração como um órgão doente", serve para codificar – e ainda aqui para trair – seu amor e sua paixão pela irmã de sua esposa." Foi neste estado de coisas que ele cunhou um aforismo bem conhecido da Turquia: "Baldiz, tatlidir Baldan". A tradução – “A irmã da mulher é mais doce que o mel” – revela bem o que ia pelo coração do psicanalista e seu desejo inconsciente de tornar-se um sultão, pelo menos no quesito mulheres.

Olhares Trocados
Swales prossegue: “Freud iria criar para si um harém de fato – Martha, Minna, Emma, Fanny, Marie Helene, Lou, Ana, etc – com o divã real como a sua própria organização de princípio." Todas elas passaram pelo divã de Freud (assim como, claro, vários homens) e todas elas manifestaram seus desejos inconscientes, reprimidos, recalcados que revelaram a uma pessoa que não conheciam e que, no setting, nem viam durante as sessões. Deitadas numa peça de mobiliário, instigadas a questionar a própria vida, formaram o harém de Freud que usou o divã como metáfora tangível e substancial de sua teoria dos complexos, notadamente os sexuais, que desfilaram por anos a fio à sua “vista”. A natureza acolhedora do divã também é convidativa. E é convidativa também à brincadeiras sexuais, ainda que estas permaneçam no recôndito da dupla analista/analisando, indevassáveis a um e outro, num jogo de fala/escuta que se interrelaciona, se dinamiza, se completa e se desconstrói.
À Hanns Sachs, psicanalista austríaco, Freud disse certa vez: Given to the founder of psychoanalysis by one of his patients, Madame Benvenisti, about 1890, Freud's couch - covered with oriental rugs and chenille cushion - was used in his psychoanalytic sessions in Vienna.Here Freud's patients would recall and speak of their traumas, or say whatever came to mind before he interpreted their unconscious messages and memories.While the patient was lying on the couch, Freud sat out of sight next to it: "I cannot let myself be stared at for eight hours daily", he exclaimed to Hanns Sachs."Eu não posso me deixar ser olhado por oito horas diárias". Entende-se que Freud tivesse essa dificuldade. Afinal, ele teorizava a partir da prática e praticava o que desenvolvia em teoria. Sem referenciais que não os próprios (Charcot, Bleuer, Breuer não eram grandes paradigmas para o novo método que desenvolvia), precisava se proteger. Hoje se vê que o divã nem sempre é necessário na prática psicanalítica (e absolutamente dispensável em várias correntes da psicologia). Há quem acredita que sem o divã, o setting analítico fica engessado, regredido e as sessões não evoluem. O Dr. J. D. Nasio, no livro “Um psicanalista no divã” deixa claro que com crianças o divã nunca é utilizado e que pacientes psicóticos não suportam o divã, já que esse os deixa uma sensação de deriva, sem uma âncora – o olhar do analista – em que se escorar. Portanto, para além do divã, o que conta mesmo é o sujeito na sala que emite um olhar de acolhimento.


Sobre o Autor:
Referências:


FILOSOFIA ANALÍTICA E FILOSOFIA DA MENTE




A filosofia analítica é a vertente que parte da crença de que a lógica, desenvolvida por Gottlob Frege e Bertrand Russell, entre outros, teria implicações filosóficas gerais e poderia contribuir, assim, para um exame mais profundo de conceitos e na elucidação de algumas idéias.
Ela foi introduzida na Inglaterra em 1912, com a chegada de Wittgenstein em Cambridge, justamente para realizar pesquisas junto a Bertrand Russell. Assim, no período que se estende entre as duas guerras mundiais, com o impulso fundamental dado pelos textos de Russell e pelo Tratactus Logico-Philosophicus de Wittgenstein, de 1922, a filosofia analítica cresceu e tornou-se preponderante no seio da filosofia inglesa.
Os conceitos dos dois filósofos foram bem recebidos e desenvolvidos pelos positivistas lógicos do Círculo de Viena, bem como por Reichenbach e seu grupo de Berlim, nos anos 30. Estas idéias ganharam ainda mais força nos países em que a língua inglesa predomina, de 1945 até a década de sessenta, conhecida então como ‘filosofia lingüística’. Até hoje a vertente analítica é preponderante na filosofia britânica, no seu ponto de vista pré-linguístico.
Os filósofos analíticos iniciais eram Frege, Russell, George Edward Moore e Ludwig Wittgenstein. Na Inglaterra esta corrente se posicionava contrariamente ao hegelianismo, escola que integrava o idealismo alemão. Hoje esta filosofia encontra-se disseminada, além das nações que falam o idioma inglês, na região escandinava, em alguns países do Leste Europeu, assim como na Polônia e em Israel.
Pode-se dizer que, a princípio, a Filosofia Analítica caminhou por duas vertentes – o Positivismo Lógico e a Filosofia Lingüística -, ambas com precedentes importantes. O positivismo, oriundo do atomismo lógico criado por Bertrand Russell e da filosofia inovadora de Wittgenstein. A filosofia lingüística, nascida de G. E. Moore, que sempre destacou a importância da análise do senso comum e da linguagem cotidiana.
Muitas vezes este período compreendido pelo predomínio do Positivismo Lógico e da Filosofia Lingüística é conhecido como era da “Análise Clássica”. É importante também perceber que esta Filosofia é muito mais um movimento do que uma escola filosófica, porque seus seguidores não têm em comum as mesmas bandeiras conceituais, a não ser alguns princípios gerais. Os principais pontos em comum são a crença de que o motivo principal da filosofia é a linguagem; e a idéia de que a metodologia filosófica a ser seguida é a análise lógica.
O único conceito que mantém coesa a filosofia analítica é o da lógica contemporânea. O positivismo lógico era a principal vertente, a qual predominou até o começo dos anos 50. Mas a publicação de “Dois Dogmas do Empirismo”, de Quine, em 1951, deu início à diversificação de orientações dentro da Filosofia Analítica. De um lado, ela caminhou para a ciência cognitiva e a filosofia da mente; de outro, na direção de uma metafísica, diria até uma teologia analítica; em sentido diverso, orientou-se por uma filosofia política e, seguindo outra vereda, envolveu-se com várias pesquisas sobre a ética.



A Filosofia da Mente é o campo da filosofia que enfoca os fenômenos da mente, englobando pesquisas sobre a essência da psique e das condições mentais generalizadas. Ela também estuda eventos como a consciência, uma das esferas mais controvertidas do âmbito filosófico e da neurociência.
Esta abordagem percebe as questões psíquicas do ponto de vista filosófico. Além de encampar temas como memória, intenções, atitudes humanas, mecanismos do conhecimento, e interação entre a mente e o corpo, a filosofia da mente procura compreender os aspectos transcendentes que envolvem a psique, enfoca epistemologicamente a forma como as estruturas mentais realizam seu autoconhecimento e a relação entre as condições mentais e os propósitos que elas simbolizam.
Ela pesquisa igualmente tudo que se refere ao ato de perceber e a outras modalidades de coletas de dados, como os indícios essenciais para o aprendizado da língua e o exame subjetivo da consciência. Esta disciplina igualmente enfoca elementos éticos, tais como a liberdade, quase impossível de ser conquistada se a psique se adequar às leis da Natureza.
A Filosofia da Mente aparece oficialmente em 1949, quando o filósofo britânico Gilbert Ryle lança sua obra The Concept of Mind. A partir de então, esta esfera se desenvolve por meio de uma relação interdisciplinar com outras áreas científicas, como a filosofia da ciência, a filosofia da linguagem e a filosofia da psicologia.
Duas importantes correntes recentes da Ciência contribuem com este campo, a neurociência e a inteligência artificial, a primeira por tentar situar a região do cérebro na qual repousa a consciência, e a outra por tentar produzir máquinas que pensam. Embora estes planos não tenham seguido adiante, foram fundamentais para os avanços da filosofia da mente.
Mas as pesquisas destes filósofos não partem do ponto de vista de que há um espírito, à parte da estrutura orgânica e, particularmente, da cerebral; elas giram sempre em torno de questões vinculadas à ciência do conhecimento, à neurociência, à linguística e à inteligência artificial.
Estas investigações filosóficas procuram desvendar, por exemplo, se a psique é o conjunto dos pensamentos e emoções pessoais, ou uma organização que transcende estes elementos; se a mente é um ser de natureza física; se a estrutura mental e a orgânica interagem entre si, entre outras tantas dúvidas que ainda pairam sobre a Ciência e a Filosofia.
Hoje a filosofia da mente disponibiliza uma vasta bibliografia, que procura dar conta de inúmeras questões e enigmas, sobre os quais discorrem cientistas e filósofos em incontáveis livros e artigos, que esmiúçam o conteúdo da psique, as características da mente, suas condições intrínsecas.
Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_da_mente
http://www.filosofiadamente.org/
Vladimir Safatle.
O Filósofo e suas lágrimas, in Discutindo Filosofia. Escala Educacional. Ano 2, Número 8, pp. 16-21.